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Nossa crônica

28 jan 2018 às 20:51
Eu tinha uns onze anos quando li, junto com a minha irmã, a crônica Emergência de Luís Fernando Veríssimo. Eu e ela, leitoras vorazes, ríamos muito da situação narrada e, até hoje, 30 anos depois, rimos quando retomamos a leitura daquele texto. Era muita novidade para as duas meninas pobres do interior que nem sonhavam com uma viagem de carro, imagina então de avião. O narrador descrevia a sensação de um passageiro frente ao primeiro voo. Nós duas, que já tínhamos visto na televisão como era o avião, gostávamos da divertida forma de narrar de Veríssimo e, uma vez mais, essa história veio a minha memória. Fiz uma viagem longa de avião e era inevitável não prestar atenção em tudo ao meu redor. O menino estava sentado na fileira ao lado da minha, primeira viagem, comentários eufóricos com a mãe, deixando transparecer toda a alegria por estar ali. Diferente do tempo narrado na crônica, em que a aeromoça demonstrava os procedimentos de voo e emergência, agora um vídeo com animação ameniza a seriedade das informações passadas, de modo que o menino nem percebeu que, no vídeo, se ensina como o passageiro deve se comportar durante o voo, mas também a sobreviver em caso de acidente. Passadas as informações, inicia-se o taxiamento e a decolagem. O menino começou a gritar. A mãe tentando acalmá-lo. Os passageiros olhavam assustados. Levou uns bons e eternos cinco minutos para ele entender que estava vivo e seguro. Eu fiquei ali assistindo a tudo, entre rir ou chorar, apenas me calei. Dentro de mim, vinham as imagens minha e de minha irmã rindo da situação; constatei, porém, que o medo do menino, ali, real, nada teve de engraçado.

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