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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
03 jan 2018 às 19:56

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Era um tipo incomum, daqueles que não passam despercebidos em nenhum lugar. Não que não quisesse, por força de sua natureza, chamar a atenção, mas mesmo quando se punha calado, na dele como dizem por aí, os olhares a ele se voltavam. Levava os cabelos quase abaixo da cintura, naturais, apertados vez em quando para que as trancinhas ficassem firmes, tinham um perfume perturbadoramente envolvente. Nas mãos usava anéis, um deles era sinônimo do compromisso que assumira antes com uma pessoa. Todavia, tenho lá minhas dúvidas se anel é mesmo sinônimo de compromisso, porque já vi algumas pessoas usarem tal objeto igual se usa a cueca, a calça ou a camisa. Está lá o anel, marcando um compromisso como se delimita uma propriedade para que o outro possa dizer: ‘tem dono’. Mas o tipo de que falo era interessante, exótico com o cabelo a balançar quando ele se movimentava, a fala era de uma eloquência apavorante, decifrava o que via e o que nem imagina existir, eu diria que ele só não acertou na loteria, no mais, seus olhos sempre viram além, aliás os olhos eram redondos, como a lua em noite de lua cheia. Um dia, uma moça meio ingênua para as coisas do coração se apaixonou pelo tal tipo. Era uma moça bem esperta, mas quando o assunto envolvia amor, tornava-se boba demais para pressentir o perigo iminente em que se envolvia. Por longos quatro meses, o amor dos dois era algodão doce em festa de quermesse, sonho recheado com goiabada, bolo confeitado com chantilly. Amar, verbo intransitivo na visão daquele homem exótico, porque amor, para ele, envolvia apenas ele e nenhuma outra pessoa com quem brincava de amar, tornou-se para ele um pesadelo. A moça, ainda que tola, tinha seus momentos de esperteza, demorou muito, mas ela, cheia de vontade de concretizar os planos que os dois sonharam juntos, foi em busca de tornar real o combinado nos devaneios dos momentos íntimos. E aí que nosso exótico personagem mostrou de fato que o amor pela moça era apenas brincadeira de gente que não sabe amar. Ela se tornou lágrimas e dor. Uma dor tão doída que o choro dela, constante, uníssono, melancólico, lembrava o canto noturno do urutau, bruxuleante, triste que mais parece lamento humano. O homem não sabia amar, em seu redor havia friezas e inverdades... Ele não toma como verdadeira essa história, do alto de onde está, vive apenas o seu mundinho. Pediu desculpas à moça, dizem por aí. Mas desculpa traz de volta o sorriso? Apaga a dor? Faz uma pessoa voltar a acreditar? Mesmo sem amor, todos os dias se encontravam, cheios de dor, a moça passou noites e noites a voar sem rumo, chorando a perda de seu grande amor, depois virou árvore seca, ludibriada que foi pela eloquência daquele homem, até que, um dia, ela acordou pássaro que voa longe da dor e do choro.
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