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Nossa crônica

03 dez 2017 às 20:49
A moça colocou na mesa o candelabro. As sete velas foram acesas. A chama da haste central brilhava imponente com mais intensidade que as demais. Não conhecia a mulher todo o percurso histórico e significado que havia por detrás daquele objeto de ouro com braços luminosos. Menorá nunca foi apenas candelabro: era proteção, aliança. Sentou-se ao redor da mesa juntamente com o casal de filhos. Queria iluminar o ambiente que estava tomado pela noite e somente teria luz quando o dia amanhecesse. Eram tempos difíceis. Todo mês tinha de escolher qual conta iria pagar e qual serviço seria posto em segundo plano. Evitou ao máximo a escuridão; aquele mês, porém, foi impossível quitar o débito com a companhia de luz. O candelabro havia sido presente de uma família judia para a qual a mulher trabalhou há muito tempo. Peça bonita, dourada, feita, aos olhos da moça. De latão, com seis hastes que se erguiam nas laterais, abrindo-se levemente, e uma haste central, da qual emanava a mais forte chama. Os três tomavam uma sopa rala, repartiam nacos de pão para molhar com o caldo e levar à boca. Chorava por dentro a jovem mãe, a lamentar o futuro incerto, o passado de tormentos, o pouco que oferecia aos filhos. As crianças riam a risada inocente da infância. Divertiam-se com o jogo de cores da chama das velas. Elogiavam o sabor da sopa e levavam a colher à boca como quem prova um manjar raro. De repente, um vento gelado invadiu o ambiente. Um calafrio percorreu o corpo da mulher. A cortina na janela diante da mesa agitou-se e uma chama se estendeu sobre o tecido. Em instantes, outros objetos estavam queimando. O móvel que sustentava a pia estalava, as portinholas e gavetas iam se desfazendo. Inerte, segurando os filhos entre as pernas, a mulher chorava um choro seco, tranquilizava as crianças, mas não tinha reação para sair dali. No fundo, pensou ela, é hora de cessar os tormentos, a solidão, as carestias, vamos morrer juntos, os três, devorados pelas chamas. Não tardou para que a pequena casa fosse dominada pelo fogo. O socorro veio a galope, chamado por vizinhos. Quando entraram na casa, os bombeiros encontraram os três caídos, abraçados, ao lado deles estava o candelabro, intacto com as chamas fracas, mas acesas, embora a água lançada de fora já tivesse apagado a maior parte do fogo. Não havia marcas de queimaduras nos corpos, nem tosse que indicasse a contaminação dos pulmões pela fumaça. O candelabro não estava danificado pela alta temperatura. Um dos bombeiros tomou o pulso da família. Todos vivos. Sem acreditar no que constatavam, tiraram de lá os três e os conduziram ao hospital. Ao amanhecer, qualquer um que passasse pela casa via apenas ruínas, mas a moça e o casal de filhos foram poupados. Proteção é gratuita, não se compra, não se empresta, apenas se recebe.

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