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Nossa crônica

01 out 2017 às 21:20
Amém, nudes e que legal: meu tio no WhatsApp
Tenho um tio que é uma figura. Dessas pessoas que é impossível não gostar. Faz rir com a facilidade de um palhaço, no bom sentido, mas quando necessário, é sério demais. Apesar de ter nascido na época da máquina de datilografar, tornou-se um migrante digital e tanto. Gosta de celular última geração e até disputa com a filha de 22 anos quem vai comprar primeiro o próximo modelo do I. Todos os dias troco mensagens com ele e rio muito com o que recebo. Como a intensidade das mensagens é grande, comecei a analisar, sem mesmo me dar conta, o conteúdo delas. Constatei que, pela manhã, meu tio acorda religioso. Não sei se motivado pelo ato de despertar ou se pela oração matutina, mas o fato é que ele envia pelo menos três mensagens com pombas brancas, versículos bíblicos, frases de efeito, aguinha mansa correndo num regato aprazível aos olhos. Enfim, um cenário que faz a gente se perder na graça natural e refletir sobre o dom divino de estar vivo. À medida que a manhã vai transcorrendo, penso que meu tio vai se dando conta de que a vida pede uma boa gargalhada, aí começam a chegar as piadas. Difícil não ter uma boa. Sem nada que lhes desabone o riso, nem preconceito, nem vulgaridades, ele adora enviar aqueles causos curtinhos e gostosos de ler. Sempre arrumo um tempinho no corre-corre da manhã para dar uma risadinha com as piadas que me manda. Na hora do almoço, uma pausa. Afinal, quem tem mais de sessenta e já está aposentado tem direito a um cochilinho depois da refeição. Então, lá pelas quatro, considero o ápice da vida digital de meu tio. Acho que ele descobre como é bom estar vivo, aliás, acho que descobre que está vivo e começam a chegar as mensagens com teor mais picante. Algumas mulheres bonitonas em biquínis que deveriam ser pelo menos dois números acima, umas piadinhas com tom mais forte que aquelas enviadas pela manhã. Tá bom, vamos lá, são mensagens de apelo erótico. Leio algumas, vejo outras, deleto todas. Passadas as horas de euforia, a noite se aproxima e acho que o medo de não chegar o amanhã ganha sentido aos olhos de meu tio. Aí, quase que num instante de reflexão, ele decide recuperar a religiosidade matutina e deixar o lado mais espiritual prevalecer. Sábia escolha! Vai que amanhã ele não desperte. Assim, terá tido umas últimas horas de boa ação enviando mensagens com estrelinhas pulando, lua brilhando e frases que desejam uma noite cheia de encantos. Os estágios de meu tio vão do amém ao nudes para, finalmente, terminar o dia no graças a Deus. Uma grande figura este meu tio, faz do dia uma narrativa com início, meio e fim, sem deixar de dar uma nuance apimentada para o conflito.

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