Notícias

Nossa crônica

09 mai 2018 às 21:55
Era uma tarde de domingo, ela estava em minha casa já há uns dez anos, caminhava para mais de sessenta, embora em estado de perfeita conservação. Era uma poltrona de molas, com pés palito, típicos dos idos de 1950. O tecido fora por mim substituído por um de estilo mais contemporâneo; no entanto, sem tocar no design original. A poltrona, que hoje é objeto de decoração, compunha o conjunto estofado da casa de minha infância. A casa em que vivi até os 16 anos. Chão de assoalho, paredes de madeira e telhas à mostra. A simplicidade da casa era confirmada pela simplicidade dos móveis e das pessoas que ali residiam e formavam uma família. Quando trouxe para minha casa, anos depois, a poltrona, os tempos eram outros, e eu pensava nela como um belo objeto de decoração vintage. Nesta tarde de domingo, porém, meu objeto de decoração me levou para outros caminhos. Fica acomodada no canto do quarto, com almofadas coloridas em cima. Já a arrastei várias vezes, a fim de tirar o pó que se acumula inevitavelmente. Todavia, hoje, o som que os pés fizeram ao movimentar a poltrona permitiu-me uma viagem. Não uma viagem qualquer! A maior viagem, aquela que fazemos dentro de nós e nos permite ir ao encontro das nossas lembranças. Ao ouvir o som, parei o que estava fazendo, porque me tornei incapaz de prosseguir. O som do móvel sendo arrastado no piso de assoalho, o cheiro da cera em pasta - Poliflor – com a qual eu e minha irmã deixávamos o chão quase espelhado, depois de um bom tempo usando o pesado escovão de ferro. Já não estava mais aqui, viajei para longe, senti outros perfumes que fazem parte da minha história, senti outros sons que soaram melodia a fazer dançar o passado. O tempo é mesmo um senhor tão bonito, que rege o dia, instante a instante, conduzindo passo a passo nossas ações, meu tempo hoje é outro, mas o que habita em mim, esse senhor do destino não pôde apagar e, ainda agora, se eu fechar os olhos, sinto os perfumes e os sons vivos em mim.

Continue lendo