Eu lamento, e como lamento, o fato de que no Brasil há uma ação contínua e impulsiva de rejeitar tudo o que envolve conhecer a cultura negra e reconhecê-la como parte essencial da formação da cultura brasileira. Em contrapartida, vivencio uma supervalorização de tudo o que envolve a cultura estrangeira. Não me vejam como ranzinza. Na verdade, eu amo demais tudo o que me faz identificar-me como brasileira e, nesse tudo, eu me formo pela dança, pela música, pelos ritmos, pela fala, pelas religiões de matrizes africanas e por tantas outras situações que me permitem ser o que sou, brasileira. Em relação às religiões, o candomblé completou, na última segunda-feira, 42 anos de liberdade na Bahia. Antes disso, punia-se como criminosos seus praticantes e somente com autorização e pagamento de taxas era possível cantar e cultuar aos orixás no terreiro. Com a Reforma Constitucional de 1988, a prática passou a ser livre em todo o Brasil, mais do que isso, a liberdade de culto é protegida com status de direito fundamental do ser humano. Infelizmente, muitos dão crédito a ideias equivocadas sobre a origem das religiões de matrizes africanas e suas manifestações de cultura. Esse erro acaba por se reproduzir como uma espécie de condenação e, ainda que pouco ou quase nada se conheça sobre o assunto, mitos e lendas são disseminados como se fossem mantras a serem repetidos por grupos que se querem hegemônicos. O desrespeito ao candomblé, assim como a outras religiões, representa ações de desrespeito ao homem, às suas crenças e idiossincrasias. Não importa a qual religião um amigo ou amiga pertença, tampouco se é ou não praticante, para mim, o que importa é permitir-me surpreender-me com o outro porque ele é essência e não religião. Prefiro abolir o que serve a outrem para condenação, a fim de que eu possa ter uma ideia justa do que representam os tambores que soam como símbolos da necessidade de expressão de um povo.