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Nossa crônica

04 abr 2018 às 21:06
Ela tinha a delicadeza da rosa, mas não ocultava os espinhos. Ganhara-os amiúde e o tempo não se incumbiu de apagar. Às vezes, soava tão terna e leve e dirigia-se a ele com uma doçura ímpar. Em outras, porém, vinham-se somar aos espinhos amarguras passadas e, em algumas horas, ela era ferida cálida. Queria viver no canteiro como outras rosas, canteiro cotidiano, cheio da presença de espécies múltiplas. Todavia, optou pela moradia mais longa. Escolheu para si um canteiro quase solitário. Havia rumores nele vez ou outra, mas a opacidade das paredes, aliada à sensação do vazio deixaram a rosa despetalada. Queria reagir, claro, via até mesmo uma esperança pousar sobre ela. Esperança inseto, concreto, real, mas a esperança mesmo, sentimento, essa não brotou. Repetidas vezes pediu a ele que viesse. Ela sabia que o tempo era curto, e curta também era a capacidade daquela rosa em esperar. Ainda era outono quando ele chegou, pétalas brilhantes, sedosas. Não tardou para que um inverno rigoroso, regado com abnegações, pousasse sobre as rosas. Pobre menina, em meio a tanta força que a conduzia avim abismo, encontrava formas para cumprir tantas tarefas. Mecanicamente ia seguindo a ordem do dia; juntava os afazeres como que em máquina programada e cumpria a todos. Então, à noite, quando se via livre das tarefas, esmorecia, tal qual esmorecem as rosas depois de um tempo colhidas. Era no canteiro vazio que ela tentava encontrar formas para não regar a terra com o sal dos olhos. Pobre rosa solitária, como são os canteiros regados de neve, como são as noites de inverno, como são os dias em que já não mais soam os alarmes das obrigações.

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