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Nossa crônica

Por Cláudia Bergamini
31 jan 2018 às 21:54

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Se estivesse vivo, meu vovô, como todos os netos o chamavam, teria completado, no último domingo, 102 anos. Seu Domingos Cirilo Bergamini era um homem simples. Trabalhou na lavoura como grande parte dos imigrantes italianos que por aqui chegou. Amava futebol, doce de figo e dançar. Tinha um jeito muito particular de cuidar da vida alheia. Depois de aposentado, gostava de ficar sentado na frente de sua casa em Cornélio Procópio e comentar: ‘onde é que vai essa aí ca borsa’; ‘de onde tá vindo essa ca borsa’. E a gente falava: ‘Vovô, para de cuidar da vida dos outros, a moça tá indo trabalhar’ ou ‘Vovô, essa é a fulana, não fala assim’. Mas ele adorava esses comentários. E quando passava uma mulher de perna grossa, ele dizia: ‘moça de perna grossa é preguiçosa’. Seu Domingos era assim. Querido, alegre, ensinou a mim musiquinhas, brincadeiras, a tomar vinho e palavras em italiano. Penso eu que ele, ao tentar falar o italiano, sentia-se mais perto de sua mãe e pai, a nona e o nono. Vovô viveu 82 anos. Mãos cansadas, pés que traziam marcas do trabalho árduo na lavoura. Um homem do campo que viveu suas últimas décadas na cidade. Criava animais e os amava. Certa vez, decidiu criar um bezerro na mamadeira. Problema nenhum até o bichinho começar a se tornar um bichão. Vovô morava na área urbana, espaço que não combina com um animal grande e que precisa de espaço, muito espaço. Deu o que fazer pra ele aceitar levar o boizinho pra chácara de uma das filhas. Lembro-me bem que quando passávamos pela casa dele na volta da escola, eu e minha irmã nos deparávamos com o seu Domingos de quatro na calçada. ‘Vovô, o que o senhor está fazendo?’ Ele respondia: ‘contando as formigas.’ A velhice é isso para muitas pessoas: a busca por algo a fazer, sobretudo na década de 1990, em que o idoso era um sujeito de poucos direitos e para o qual não havia muito atividade - ou nenhuma - a não ser a béstia às sextas com os amigos e o futebol. Quando se sentava para assistir ao futebol, na hora da cobrança do pênalti, gritava: ‘pênis’. E todos riam. Saudades de você, vovô, obrigada por ter sido tão importante em minha criação. No céu, você é uma estrela a brilhar, pois sua presença neste plano foi de paz.
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