Mais uma vez abri a gaveta das lembranças e lá estava ela, a fotografia. Foi tirada num inverno caliente de um tempo de flores. Era uma tarde fria, mas com cheiro de primavera. Lembro de tudo o que antecedeu o momento do clique e escrevi, de pronto, o que senti no instante que antecipou a foto. Era ainda uma escrita gratuita, desenvolvida às pressas por mãos que desejavam registrar a magia do sentir, a perfeição do instante. Não sei o que se passa dentro de mim, mas toda vez que olho para essa foto já amarelecida pelo tempo deixo-me levar pela saudade que vem perfumada, a exalar um intenso olor de jasmim. O papel com a imagem poderia nada dizer, o fato é que dentro de mim ainda não estão descansadas as sensações tantas daquele inverno inesperado. Os anos que se passaram não foram suficientes para trazer a calmaria e, por isso, ao abrir a gaveta e me deparar com a fotografia, revigoro energias mortas, desperto fantasmas da felicidade e dou vida à saudade. Penso que todo ser humano há de ter uma foto que o faça reviver o passado, senão ao menos uma peça de roupa, um perfume ou acessório capaz de fazer reviver uma magia já perdida. A gente luta para apagar o que foi e sempre acontece algo que traz à tona o que já não é. Fechei rapidamente a gaveta. Senti o coração palpitar com as reminiscências. Não queria olhar mais para a fotografia, peguei-a, levei-a para a cozinha e numa bacia de inox ateei fogo. Se bom ou ruim, que importa? Para frente eu sigo.