"Estamos cada dia mais fortes e organizados", adianta um dos representantes dos moradores do residencial Flores do Campo, localizado na Gleba Primavera, região Norte de Londrina, ocupado no dia 1° de outubro. Quarenta dias depois, a reportagem retornou ao bairro, ainda em construção. Com população maior do que 60 municípios do Paraná, o Flores do Campo se parece mesmo com uma cidade. Atualmente, possui quatro mil habitantes e inúmeros estabelecimentos e até assistência religiosa. Para abrigar a criançada, a comunidade prepara um espaço para servir de creche.
O residencial é um empreendimento do Programa Federal Minha Casa Minha Vida assinado em agosto de 2013. A previsão para a entrega oficial era para janeiro de 2015, porém o ano de 2016 começou e o bairro não tinha data para ser inaugurado. A obra, inclusive, foi paralisada em alguns momentos. O motivo seria a falta de pagamentos à empreiteira responsável pela execução.
Segundo os moradores, a demora motivou a ocupação do empreendimento. "Não tínhamos um lugar para morar, nem condições de pagar os aluguéis, por isso ocupamos o Flores do Campo. Todos aqui possuem inscrições há anos na Cohab (Companhia de Habitação de Londrina). Nosso sonho é formalizar esta situação e pagar a primeira prestação da casa própria. Sabemos que a ‘estrada’ até isso acontecer é longa, mas, além da resistência, temos muita paciência", adianta a outra representante do grupo, que também pediu para não ter o nome divulgado.
O interior do residencial foi apresentado ao NossoDia pelos próprios moradores. Durante a tarde chegavam carros, carroças com móveis e eletrônicos, levantando poeira do solo de terra fofa. "As pessoas não param de chegar e com isso nos fortalecemos. Há muitos idosos que tinham sido abandonados pelos familiares e estavam desabrigados. Nosso trabalho é de acolhimento. Não impedimos ninguém de entrar, mas todos são devidamente identificados na entrada e na saída", diz uma das representantes da comunidade. Ao lado da entrada foi improvisado um escritório. Cadernos com nomes dos habitantes e pastas com projetos ocupam a sala.
Sobre a higiene, o caminhão de lixo passa pelo bairro uma vez por semana. "Quando ele chegou pela primeira vez, começamos a aplaudir de emoção. Constantemente, realizamos um mutirão em busca de água parada. Dengue? Aqui, não. Frequentemente ainda somos visitados por conselheiros tutelares e assistentes sociais, que avaliam a situação das famílias." As casas possuem energia elétrica e água, as ligações foram realizadas pelos próprios moradores.
Desempregada, Antonia da Silva mora com três filhos numa das casas do residencial
‘Não tinha um teto para passar a noite e fiquei desesperada’
Antônia Marcelino da Silva é umas das quatro mil pessoas que vivem no Flores do Campo. Ela mora em uma das casas junto aos três filhos, de oito, sete e quatro anos de idade. "Faz uma semana que cheguei. Fiquei desabrigada da noite para o dia. Cuidávamos de uma grande gráfica, localizada na PR-445, que faliu recentemente. Com isso, fomos colocados na rua", conta ela, ressaltando como chegou ao Flores do Campo.
"Meu marido desapareceu. Não tinha um teto para passar a noite e fiquei desesperada. A minha sorte foi encontrar o Flores do Campo. Hoje moro com meus três filhos pequenos com tranquilidade. Fiz a minha inscrição na Cohab há sete anos, estou até hoje aguardando", acrescenta ela. (P.M.)
Casas geminadas vão saindo do chão em mutirões
Em outubro a Justiça Federal determinou a reintegração de posse do residencial Flores do Campo, em favor da Caixa Econômica Federal. A Caixa não se pronunciou sobre o assunto. De acordo com a assessoria de imprensa, a instituição aguarda pelas medidas legais por parte das autoridades responsáveis, com o objetivo de reaver o empreendimento.
Segundo o presidente da Cohab, José Roberto Hoffman, a Polícia Federal deve estabelecer a logística para realizar a reintegração, supostamente em conjunto com a Polícia Militar. Hoffman afirma que desconhece a data para a reintegração, mas acredita que ocorrerá em 2016. Sobre a situação dos ocupantes, o presidente diz que eles não irão para o início e não serão retirados da lista de atendimento do município. Ele salienta que os nomes são chamados pela Cohab de acordo com a vulnerabilidade da família, e divulgados a partir de sorteios. (P.M.).
Empreendimento do Minha Casa, Minha Vida era para ser entregue em 2015: Caixa aguarda ação de reintegração de posse
Mesmo inacabado, conjunto de prédios serve de moradia
Segundo divulgação da Prefeitura, os imóveis do Flores do Campo são para famílias com renda até três salários mínimos. Seriam construídas 1.218 unidades habitacionais: casas geminadas, isoladas, sobrepostas e apartamentos, todos com área útil entre 39,44 m² e 41,56 m². O empreendimento destina-se às famílias cadastradas na Cohab. Inicialmente, as prestações deveriam ficar entre R$ 25 e R$ 80, conforme a renda de cada família.
Segundo o site da Caixa Econômica Federal, a obra receberia investimentos de R$ 82,8 milhões, sendo R$ 77,9 milhões com recursos do FAR. O bairro teria iluminação pública, redes de energia, água e esgoto, drenagem de águas pluviais, pavimentação em concreto betuminoso, passeio em concreto, arborização e muros de arrimo entre as casas e na divisa do loteamento. (P.M.)
Residencial conta com diversos estabelecimentos comerciais
Casas foram pintadas pelos próprios moradores: "As pessoas não param de chegar e com isso nos fortalecemos"
No Flores do Campo há muitos desempregados. E boa parte deles encontra no próprio bairro a maneira de garantir uma renda. "Moram aqui diversos profissionais que não aguentaram pagar aluguel e aguardar tanto tempo na fila da Cohab. Eletricistas, pedreiros, marceneiros, encanadores. Há muitos desempregados, pelo menos 50% da comunidade, mas eles sempre têm um reparo ou outro para fazer na vizinhança e conseguem ter renda com a prestação dos seus serviços", comenta um morador.
O residencial está a pelos menos dois quilômetros da maior parte dos estabelecimentos da avenida Saul Elkind, principal via comercial da região Norte. Por causa da distância, a comunidade trabalha para ter o máximo de alternativas dentro do próprio bairro para suprir suas necessidades de consumo. "Como estamos longe de tudo, tentamos ter tudo aqui. A igreja foi a primeira a ser organizada. O objetivo é que todos tenham uma orientação religiosa", diz. "Os moradores, muitos desempregados, montaram o seu próprio negócio. Há mercearia, bazar, mercadinho, borracharia, mecânica", detalha o morador, mostrando ainda a criação de uma horta comunitária, com sistema de irrigação desenvolvido por um murador.
Os primeiros filhos do Flores do Campo já chegaram. Três crianças nasceram no residencial nos últimos dias, outras estão por vir. Por causa da demanda, um projeto prevê que o barracão (antigo escritório da empreiteira) seja usado como creche. "Aceitamos ajuda dos moradores vizinhos. Todos aqui são carentes e qualquer ajuda, seja roupas, alimentos ou calçados, é bem vinda", completa. (P.M.)