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NEM TUDO SÃO FLORES - Tensão sem dia para acabar

22 nov 2017 às 22:25

Para os moradores do Residencial Flores do Campo, zona norte de Londrina, a tensão não tem dia para acabar. Mesmo com a decisão do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, no início da semana, que deferiu o prazo de 90 dias para a reintegração de posse. Quem permanece afirma que se instalou no bairro porque não tem (e não terá) onde morar. O Flores do Campo possui 1.218 unidades habitacionais. Segundo representantes da comunidade, o residencial já abrigou 400 famílias.
"Seja hoje (22), amanhã, daqui uma semana ou três meses. Independente do tempo que deram para a gente, continuarei sem ter um lugar para ficar", afirma a dona de casa Cristiane Aparecida do Carmo, 38 anos, que há quase seis meses vive no Flores do Campo. Desempregada, ela mantém os três filhos, sendo um de cinco anos e dois (gêmeos) de um ano e dois meses, apenas com o que recebe do Bolsa Família: R$ 340 (programa federal destinado às famílias em situação de pobreza). "Antes eu morava no Jardim União da Vitória (zona sul), com meu irmão. Ele é casado, pai de três filhos, mora em uma casinha e também ficou desempregado", relata. Para dificultar, o pai dos filhos de Cristiane desapareceu após o divórcio. "Como ele não estava mais pagando a pensão (alimentícia) aos filhos, eu o coloquei na Justiça. Depois disso ele desapareceu", conta ela.
A maior parte dos moradores veio de outros municípios. Entre eles a dona de casa Luciane Moreira, 26 anos, que continua no Flores do Campo com o marido e os três filhos. "Eu e minha família somos de Cascavel (oeste do Paraná). Em 2016, meu marido recebeu uma boa proposta de emprego. Nos mudamos para Londrina. Depois de alguns meses, ele ficou desempregado. Não tínhamos mais condições de pagar aluguel. Sem dinheiro, nos mudamos para o Flores do Campo", relembra a jovem.
Luciane ainda destaca que, apesar do período de 90 dias (conforme decisão do TRF), continua sem alternativas para abrigar a família. Ela diz que mesmo se tivesse condições financeiras para o aluguel, encontraria inúmeras dificuldades para atender às exigências dos contratos imobiliários. "Para você fechar um contrato de aluguel, exigem, ‘logo de cara’, pagamentos dos dois primeiros meses. Gostaríamos de ter condições financeiras, mas não temos", conta a mulher, afirmando que o dinheiro da família é direcionado para alimentar os filhos. "Meu marido é carpinteiro e pedreiro, mas não encontra serviço em todas as semanas. Recebo R$ 100 do Bolsa Família. Só com fraldas, gasto R$ 150. Com leite, mais R$ 90", conclui a moradora, mãe de quatro crianças, de nove, quatro e dois anos, além do caçula, de dois meses de idade. (Paulo Monteiro/NOSSODIA)

Operação adiada pela Justiça
Em outubro de 2016, a Justiça Federal determinou a reintegração de posse do Flores do Campo, em favor da Caixa Econômica Federal. A desocupação estava marcada para a manhã de terça-feira (21). A operação seria realizada pela Polícia Federal, com a participação das Polícias Militar e Civil, além da Caixa e Cohab (Companhia de Habitação de Londrina). Na última sexta (17), a Defensoria Pública da União entrou com recurso no TRF da 4ª Região pedindo a prorrogação do cumprimento da reintegração. A decisão do Tribunal, que deferiu o prazo de 90 dias, foi divulgada na segunda (20), pela Polícia Federal. Uma força-tarefa formada por PF, Polícia Civil e Polícia Militar realizou operações de busca e apreensão no residencial para, segundo as forças de segurança, acabar com os nichos de criminalidade que havia na área.
Segundo os moradores, as últimas semanas foram tensas. Com a aproximação da reintegração, pelo menos 20 famílias já teriam deixado o Flores do Campos. "O medo e a tensão tomaram conta de todos. E não é para menos, o helicóptero da Polícia fica por horas sobrevoando o nosso bairro", conta o pedreiro José Laércio Justino, 48 anos, pai de dois filhos adolescentes. "A gente imagina que eles (policiais) vão invadir a qualquer momento. Por causa disso, os moradores que possuem condições foram embora. Só ficou mesmo quem não tem para onde ir", repete Justino.
O residencial é um empreendimento do Programa Federal Minha Casa Minha Vida, assinado em agosto de 2013. A previsão para a entrega oficial era para janeiro de 2015, porém o ano de 2016 começou e o bairro não tinha data para ser inaugurado. A obra, inclusive, foi paralisada em alguns momentos. O motivo seria a falta de pagamentos à empreiteira responsável pela execução. O bairro foi ocupado irregularmente no ano passado. O custo total da obra é de R$ 77 milhões. (colaborou Rafael Machado/Grupo Folha) (P.M.)


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