Histórias que estão morrendo. Em ruínas, muitos túmulos nunca passaram por manutenção. Parte das lápides caiu sobre as sepulturas. Há cruzes e jazigos cobertos pela vegetação.
A dona de casa Maria Helena Bernardes mora em frente ao cemitério e é considerada a guardiã do espaço. Segundo ela, o cemitério não é diariamente visitado. "Nem em datas especiais. Não há uma grande movimentação de visitantes até mesmo no Dia de Finados (2 de novembro)", relata. "A maioria foi sepultada há muito tempo neste cemitério, há mais de 80 anos, e não possui familiares na região de Londrina", conta Maria Helena.
A dona de casa acredita que alguns túmulos até "desapareceram". "Olha, a grama tomou parte do cemitério e acabou escondendo os túmulos. Às vezes, a pessoa caminha por aqui e não sabe que está sobre um túmulo", diz Maria Helena, acrescentando que o cemitério (cercado por muros baixos) sofre a invasão de vândalos, responsáveis também pela destruição. "Quando vejo alguém aprontando aqui, grito lá de casa para sair. Se precisar, aciono até a Polícia. Me esforço para evitar que um espaço tão bonito seja ainda mais destruído", afirma a moradora. Formado por alemães, o patrimônio Heimtal foi o primeiro núcleo rural de Londrina.
Morada dos anjos
O cemitério do Heimtal também foi chamado de "morada de anjos". A dona de casa Maria Helena Bernardes resgata a história que até hoje comove a comunidade: dos bebês gêmeos que supostamente morreram envenenados em 1940. "Uma mulher, que na época tinha 32 anos, viajou do interior de São Paulo para o Heimtal. A intenção dela era apresentar os filhos, de oito meses de vida, aos familiares que aqui moravam", detalha. "Enquanto preparava o alimento dos bebês, uma pessoa teria envenenado o leite. Os gêmeos acabaram tomando e morreram envenenados", revela.
Para não deixar dúvidas, a dona de casa direciona o visitante até o pequeno túmulo dos gêmeos. O jazigo possui adornos e dois anjos de concreto. Apesar da deterioração, a placa se mantém legível, porém no idioma alemão. Mesmo assim é possível ler os nomes de cada um deles, a data dos nascimentos (dezembro de 1939) e dos óbitos (agosto de 1940). Apesar do relato, não há informações se a história é verídica. (P.M.)
Professor de história da UEL entende que local é fundamental para memória histórica londrinense
O professor do departamento de história da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Marco Antonio Neves Soares, entende que o cemitério do Heimtal é fundamental para a memória histórica do norte paranaense. "Há pouco acesso aos documentos escritos sobre este período da região norte do Paraná. Mesmo deteriorado, este cemitério, que abriga pioneiros alemães, húngaros e outras etnias, ajuda a preencher as lacunas desses documentos por meio de suas marcas e arquitetura", comenta Soares.
Para ele, a administração pública nunca se preocupou em manter e restaurar o espaço. "Além de invasões, erosões destruíram e até levaram alguns túmulos desse cemitério. Infelizmente, o poder público nunca teve interesse em preservar sua história. O município poderia fazer uma lei de proteção desses bens materiais para evitar ainda mais destruição. Lei que deveria se estender a outros cemitérios de Londrina e evitar o avanço da deterioração do espaço e a intervenção anacrônica de túmulos históricos da cidade", observa.
Superintendente da Acesf (Administração dos Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina), Douglas Pereira (Tio Douglas) informa que o município não tem permissão para intervir nos históricos túmulos. "Existe a lei (municipal) 2837/1977 que impede nossa administração de realizar qualquer intervenção nesses jazigos", explica Pereira. Junto à Procuradoria Geral do Município, o superintendente conta que desenvolve um estudo para atualizar a lei e ter acesso aos jazigos. "O objetivo é que ele seja encaminhado e protocolado na Câmara de Vereadores até o próximo mês. A Acesf pretende obter a concessão do uso dessas unidades", acrescenta. Ele ressalta a dificuldade de localizar os familiares responsáveis pelas sepulturas do Heimtal. "Como são muito antigos, não conseguimos fazer contato com familiares. Temos a intenção de construir memoriais nos cemitérios distritais de Londrina para valorizar a história da região", salienta Pereira. "Existe um processo de tombamento histórico da região e o cemitério do Heimtal faz parte dele. Temos um servidor exclusivo para atender os cemitérios do Heimtal e da Warta (também na região norte)", reforça o superintendente. (P.M.)