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Marcados pelo sexo - A dureza de quem mora na ‘casa das primas’

01 mai 2017 às 10:02


Prostíbulo, casa de tolerância, zona, casa das primas, privê, casa de massagem, bordel. Os nomes para designar o local destinado ao sexo pago variam e pela regionalidade e se multiplicam em sinônimos. A casa da luz vermelha, a zoninha, a casa das felicidades, o xaneiro ou o cabaré são, por assim dizer, também artifícios para falar "daquilo". De forma velada, principalmente em cidades pequenas, a população sabe o que funciona no endereço e julga o que acontece ali, assim como quem entra ou sai. Reportagem do NOSSODIA apurou casos em que moradores se viram em apuros ao descobrir que a casa onde vivem com a família – crianças, cachorro, idosos -, num passado recente, foi uma casa de prostituição.
Um aviso no portão, no centro de Londrina, informa: "Aqui é casa de família". É mais que um aviso. É também um apelo a quem passa ou que já frequentava o ambiente, para que não toque o interfone, não perturbe e deixe a família gozar do descanso merecido. A moradora aceitou falar de sua experiência, desde que não fosse identificada. "Decidimos colocar o aviso para evitar tanto incômodo, principalmente de madrugada. Antes de entrar na casa, pensamos que fosse uma empresa, até que uma vizinha disse que era uma casa de prostituição, que fazia inclusive anúncio como casa de massagem", relata. "Como aqui são apartamentos, a outra senhora que se mudou quase na mesma época que a gente disse que estranhou, no dia em que estava fazendo a faxina, uns homens mexendo com ela, mas nunca passou pela nossa cabeça que era um lugar de prostituição", diz.

Antecedentes do imóvel
Há um ano em um imóvel que serviu de "casa de massagem", o técnico em segurança do trabalho, Sidney Massoti, 46 anos, prefere se conformar. "Deve ser complicado para a imobiliária também e acredito que não sabia, mesmo. Ou sabia e não me falou. Quando eu soube da verdade, não fui atrás tirar satisfação porque agora já acalmou, talvez os frequentadores já tenham sido avisados, mas mantemos o recado na porta", avisa. Vizinho a uma casa de prostituição, o técnico em eletrônica Benedito Aparecido da Costa, 52 anos, admite que há momentos em que se irrita. "Eu tenho que ficar parando meu serviço e incomoda. Só respondo que é do lado, mas tem hora que enche o saco." Na opinião de Costa, a imobiliária deveria informar o novo inquilino sobre histórico do imóvel. "Só sei que quando a gente vai alugar é tanta informação que tem que dar, pensei que servisse para todo mundo", argumenta. Uma outra comerciante que prefere não divulgar seu nome diz: "Tem vizinho que se incomoda e reclama. Eu gostaria de saber, mas sinceramente um crime ou um suicídio me incomodariam mais do que saber que foi uma casa de prostituição", diz. "De toda forma, acredito que deva ser embaraçoso, principalmente quando se tem criança em casa", reflete. (W.V.)


"Minha casa era uma zona"
Na região oeste, uma família que pede para não ser identificada relata a experiência de ter descoberto que a casa em que vive servia para prostituição. Do olhar julgador, a comentários sem conexão com a rotina da família, os moradores passaram por situações constrangedoras até que a verdade viesse à tona. "No começo, estranhamos que muitos homens interfonavam e sempre perguntando se havia meninas disponíveis. Quando saíamos no portão, percebíamos que os carros passavam bem devagar e nos medindo, até que a recusa de um taxista nos deixou com a pulga atrás da orelha. Diante da confirmação, foram alguns dias em que passamos a olhar a casa de outro jeito, embora não houvesse qualquer detalhe de que a nossa casa, sóbria e familiar, um dia serviu para esse tipo de serviço". Há quatro meses, está tudo tranquilo, os antigos clientes deixaram de incomodar e a família goza do conforto dos cômodos, da excelente localização e até o cachorro da família se adaptou ao quintal, seu espaço preferido. "Bem que a gente estranhou que a imobiliária aceitou nossa contraproposta de cara e nossa empregada também ouviu o corretor comentar que foi rápido que alugou". (W.V.)


Dona de "casa de massagem" quer paz com a vizinhança
É início de tarde e a proprietária de uma casa de massagem aceita dar entrevista. Em um bar, próximo ao seu estabelecimento, Sandrinha, 43 anos, nome fictício dado por ela, conta que mudou de endereço recentemente. "Em primeiro lugar, o dono do negócio tem que ter ‘semancol’ porque se for para um bairro residencial vai ter problemas e os vizinhos vão reclamar e com razão", opina. Eu, por minha vez, que faço investimento com pintura, reforma, não quero ter prejuízo e ser obrigada a me mudar de novo. Até porque, não gosto de incomodar", diz. "Quando você aluga, gasta e entrar numa errada, é prejuízo." Com 10 anos de atuação profissional, Sandrinha diz que para a imobiliária, o que vale é o pagamento em dia. "Exigem nome limpo, o compromisso do pagamento em dia, cuidados com imóvel e as obrigações comuns a outros inquilinos, mas ninguém me pergunta qual o fim da locação", enfatiza. (W.V.)

Morador incomodado pode rescindir contrato
De acordo com o advogado especializado em Direitos do Consumidor, Rodrigo Brum, os inquilinos poderão rescindir o contrato em razão dos motivos alegados. "Os motivos são graves e trazem perturbação à locação, o que pode constituir motivo para uma rescisão motivada por parte do consumidor, visto que não foram informados previamente sobre os locadores anteriores." Brum ainda destaca: "O Código de Defesa do Consumidor tem aplicação nas locações residenciais. Sendo assim, não informar os locatários sobre as condições das locações anteriores, constitui quebra do direito básico à informação, que deve ser ampla e bem realizada (art. 6, inc. III, CDC). Nesse sentido, pode até gerar dano moral essa falta de informação, de modo que o consumidor deverá ser indenizado." (W.V.)


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