Respirar fumaça oriunda da queima de tudo quanto é tipo de lixo faz parte da rotina dos moradores do Jardim Primavera, zona norte de Londrina. Com o lixão que se formou de forma desordenada às margens da Rua Francisco Merlin, não é à toa que a bronca corre solta por ali. Vizinha da área há sete anos, a dona de casa Maria de Lourdes da Silva Bittencourt, 54 anos, afirma que sofre com a situação. "Antes do lixão tinha uma caixa de areia para brincar, mas na primeira leva de lixo que começou a ser desovada, tudo se acabou. Você não tem noção de como fica a nossa rua de tanto lixo. Chega a invadir a via e daí vem alguém e taca fogo pra abrir caminho. Aí é outro problema", reclama. "Já chegamos a ter que sair de casa, que ficou toda tomada de fumaça preta com lixo de todo tipo sendo queimado. Até caminhão de firma chega e despeja borracha velha, pneu, galho, entulho, sofá, cama, armário e não tem limite", desabafa.
O catador de reciclados Laércio de Moraes, 52 anos, admite a prática enquanto faz a queima do cobre. "Faço um dinheiro aqui porque preciso. A vida no lixão é difícil, mas crio uma neta. Eu e minha esposa somos doentes", diz.

A fumaça gerada pela queima dos entulhos é um risco às crianças que brincam na área
O contato com a neta Beatriz, de 11 anos, já não é mais o mesmo. É o que afirma a aposentada Sonilda Rodrigues de Almeida, 52 anos. "Minha neta sofre de bronquite e vir à casa da avó virou um sofrimento para ela por causa das queimadas do lixão. Tem que tirar roupa do varal, o quintal fica todo sujo, é um sofrimento. Eu entendo por que ela não vem, mas sofro pela falta. O postinho de saúde tá cheio de pessoas sofrendo com isso. Olha, tem dia que a montanha de lixo amanhece tão grande que a gente nem enxerga a rua", relata. (W.V.)
Crises respiratórias em série
A agente de saúde comunitária Andréia Cristina Britto, 32 anos, confirma o quanto a poluição do ar prejudica a saúde das pessoas na região. "O negócio é tenso. É complicado. Sofrem as crianças, os idosos e as pessoas procuram o postinho". Na unidade de saúde do Aquiles Stenghel, Britto explica que o fisioterapeuta respiratório dedica-se a esses casos frequentemente. "É algo que poderia ser evitado, mas não há como os moradores impedirem. Nosso sentimento é de impotência e o certo era ter mais fiscalização porque todo mundo sofre", afirma. (WV)
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‘A área está desvalorizada’
Os moradores do entorno relatam que a situação está tão caótica que temem pela desvalorização de seus imóveis. Na rua Vantuil Fricelli, vizinhos relatam que um negócio chegou a ser desfeito recentemente por conta da presença do lixão. "Quando a compradora soube das queimadas, desistiu da compra da casa. A gente se sente discriminado", disse um morador que preferiu não se identificar. Os moradores também se sentem prejudicados pelo crescimento ao lado de uma área invadida. As casas ali foram levantadas com madeira do lixão. Lá jogam de tudo, cama, mesa, sofá, armário, é tudo descontrolado. (WV)
‘O lixão é um Shopping de noiado’
Durante a visita da reportagem, moradores que preferiram não se identificar relataram ainda ao NOSSODIA que a área onde o lixo é descartado virou um garimpo a céu aberto. "É um shopping de noiado. Tem gente que já sabe o que sempre chega, tem contato com quem compra o material e chega a tirar até R$40 por dia qui no lixão com os recicláveis. Já vi gente achar bolsa com R$ 1.100, ficam queimando fio de cobre para vender só o cobre e isso polui também." (WV)
Só em 2015, CMTU já retirou 452 caminhoes de lixo do Primavera
De acordo com a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização de Londrina (CMTU), as atividades de coleta e transporte dos resíduos descartados irregularmente ocorrem todos os dias, em diversas regiões da cidade. "No ano passado, só no ponto de despejo clandestino localizado no jardim Primavera a CMTU fez a retirada de 642 caminhões de lixo e entulho. Em 2015, de janeiro até agora já foram removidos do local 452 caminhões de detritos, o equivalente a 21.696 carriolas." A Companhia informou ainda que possui um cronograma contínuo de atendimento às áreas de descarte irregular e, no Primavera, o último trabalho de limpeza foi no dia 27. Dentro do programa "Lixo no chão, não" vigora em Londrina a lei que prevê multa a quem joga resíduos em bueiros, terrenos vazios, fundos de vale, ruas e outros espaços. Quem for flagrado pela fiscalização está sujeito à autuação, que varia entre R$ 100 e R$ 3 mil e, se for constatado crime ambiental, a multa pode chegar à casa dos milhões. (WV)
Serviço
Denúncias de descarte irregular podem ser feitas à CMTU, no telefone 3379-7968, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Fora deste horário a Guarda Municipal deve ser acionado pelo 153.