Nem o frio, nem a chuva afasta as 66 famílias de uma área de 8 mil m², ocupada no Jardim São Fernando, zona leste de Londrina. Os primeiros barracos de madeira foram erguidos há um mês. Atualmente, abrigam quase 200 pessoas, entre jovens, idosos, adolescentes e crianças. Mesmo com uma reintegração de posse prestes a acontecer, a afirmação é uma só: "vamos resistir até o fim! Não adianta vir com pressão. Eles só sairão daqui depois que conseguirem suas casas próprias", afirma Marcos Luiz dos Santos, representante dos assentados.
O terreno, de acordo com a Cohab (Companhia de Habitação de Londrina), é do Lions Clube de Londrina, responsável por construir um Centro de Apoio ao Paciente com Câncer (CAPC) no local. "Acreditamos que o espaço é do município e a informação de que foi doado ao Lions surgiu após invasão. Tanto que pedimos documentos sobre a entrega do espaço ao Lions e até agora não nos mostraram", ressalta Santos. "Tem pessoas aqui esperando uma casa há 17 anos, com inscrição na Cohab, e até hoje não foi contemplada. Eles dizem que não há espaços em Londrina para construir casas. Então por que doaram este terreno ao Lions? Por quê não constroem moradias aqui?", questiona.
"Já se passou um mês desde a nossa chegada. Caso nada seja resolvido, como até agora não foi, assim que completar três meses de ocupação entraremos com o usucapião (direito de domínio adquirido sobre imóvel em função de usar por determinado lapso tempo), construiremos casas definitivas e não sairemos mais", afirma.
Segundo Santos, a intenção é que as 66 famílias que ocupam a área sejam contempladas rapidamente pela Cohab. "Nosso objetivo é que todos sejam encaminhados ao Jardim Flores do Campo, em construção na região Norte de Londrina, erguido com recursos do Programa Minha Casa Minha Vida.
Espera dolorosa
Atualmente, os moradores tomam banhos e se alimentam em casas de familiares e vizinhos do terreno. Além disso, um banheiro químico atende o grupo. Com a chegada das temperaturas mais baixas, a atenção se volta para crianças. "Até os seis anos de idade, são 55 crianças. Acima dos seis anos, são 30 crianças", contabiliza Marcos Luiz dos Santos. "No último final de semana, o frio estava forte e pedimos que as mães levassem as crianças para posar na casa dos amigos e parentes", conta.
A auxiliar de cozinha Ediléia Paulino, 34 anos, destaca sobre a espera pela casa própria. Viúva e mãe de três crianças, afirma que fez sua inscrição na Cohab há 10 anos e não foi contemplada. "Eles falam que precisamos ter paciência, ficar na fila e que estão atualizando o cadastro e que dão prioridade às pessoas em situação de vulnerabilidade social. Conheço pessoas que fizeram sua inscrição depois de mim e já conseguiram sua casa própria", relata Ediléia. "Antes, estava vivendo de favor. Eu sempre paguei aluguel e fui despejada várias vezes. Não aguento mais esta vida", afirma a mulher. (P.M.)
Reintegração de posse
O presidente da Cohab, José Roberto Hoffmann, assegurou que o espaço não é do município. "Esse terreno não é da Cohab e sim privado, de propriedade do Lions Clube. Se fosse da Prefeitura, com certeza já teríamos solicitado a reintegração de posse", salienta. "O invasor não terá privilégios e não será chamado mais rapidamente. Pelo contrário, como seu endereço não corresponde ao nosso cadastro, ele não conseguirá ser atendido pois não pode atualizar o registro", explica Hoffmann. "Há 45 mil pessoas aguardando sua casa em Londrina. Nosso objetivo é atender 7,5 mil até o final desta gestão", completa.
De acordo com a presidente do Lions do Clube Londrina, Simone Machado Chimentão, o projeto para a construção do Centro de Apoio ao Paciente com Câncer já está pronto. O prédio terá três andares e espaço com 10 mil m², com variados serviços. "O caso está nas mãos dos nossos advogados e o pedido de reintegração de posse já foi feito. Só resta a decisão da justiça para que seja cumprida", adiantou. (P.M.)