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INCLUSÃO

Guerreiros - Força X limitação

Walkiria Vieira
NOSSODIA
20 fev 2017 às 08:29

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Walkiria Vieira
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Se a audição foi-se embora quando Maria Ione Moises, 71 anos, sofreu meningite ainda bebê, a artesã, natural de Mafra, Santa Catarina, foi além da limitação imposta. Buscou nos outros sentidos toda a força de que precisava para o convício social e para escrever uma história de orgulho, superação pessoal e que pode fazer muita gente refletir sobre sua capacidade. De uma família que não sabia lidar com o não ouvinte, conviveu com o isolamento, embora tivesse seis irmãos. Não foi alfabetizada, não aprendeu libras e foi graças às duas filhas, Ana Maria, 44 anos, e Ana Paula, 34, fruto do casamento com o porteiro Delvoux Moisés, ouvinte, que aprendeu a se comunicar com o mundo e conseguiu se integrar à sociedade. O companheirismo do marido foi fundamental na solução de questões relacionadas à educação, cuidados médicos e para o desenvolvimento das meninas, que também não ouvem. Professora de tear e pintura em tecido – para ouvintes e não ouvintes -, Maria Ione conciliou os cuidados com a casa, o casamento e a educação das filhas com a venda de artesanato e aulas. Foi na escola onde é professora que a reportagem do NOSSODIA encontrou Maria Ione. Por meio da voluntária Rosa Maria Nunes Ruiz, intérprete, foi possível conhecer a trajetória de vida desta grande mulher, se emocionar e afirmar que é uma resiliente, capaz de dar a volta por cima, de se adaptar à chamada má sorte ou às mudanças, como tenta explicar o dicionário. Diante da educação das filhas, do respeito dos alunos, Maria Ione vai além da explicação do dicionário com gestos delicados e nobres. "Tenho muita sorte de ter as minhas filhas. As coisas eram muito difíceis antes de as meninas nascerem. Lutei, lutei e formamos uma família bonita. Gostaria que as pessoas entendessem que somos surdas, mas não mudas. Esses dias, enquanto conversava com minha filha, uma mulher começou a nos imitar e a dizer que éramos macacas. Li nos lábios. É preciso que os ouvintes entendam isso", diz sob o olhar correspondente da filha mais nova.

Família e profissional são essenciais no tratamento
Especializada em Neuro aprendizagem e em Educação Inclusiva, a terapeuta ocupacional Nathália Rodrigues Cardoso cuida de pacientes com Deficiência Intelectual, Visual e Transtorno Global do Desenvolvimento. Ela explica que cabe aos profissionais investirem nos potenciais que o paciente apresenta. "O objetivo é favorecer sua autonomia e independência e a família é essencial no processo terapêutico e no ganho de autonomia do paciente. Vale ressaltar que, desde o início do tratamento, a família deve ser acolhida pelos profissionais que atendem a pessoa com deficiência. É necessário acolher e escutar os medos, angústias, sonhos e desejos do paciente e da família", explica. Realizada profissionalmente, declara: "Quando os observo com maior autonomia e independência no seu dia a dia e também na alegria da família em enxergar o potencial de onde acreditavam virem só limitações." De acordo com Cardoso, é ainda papel do terapeuta ocupacional habilitar e/ou reabilitar o desempenho e a participação do indivíduo em atividades cotidianas que lhe sejam significativas – as ocupações. Sobre o papel da sociedade, afirma: "A sociedade pode e deve olhar o deficiente como uma pessoa que, como todas as outras, precisa ser respeitada em seus direitos. Acredito que a luta das pessoas com deficiência já alcançou várias conquistas e aos poucos a sociedade tem a oportunidade de presenciar pessoas com deficiência exercendo atividades acadêmicas, profissionais, participando de atividades de lazer e presente em todos os âmbitos da sociedade." (W.V.)

Deficiente visual se sentiu mais produtiva em curso de massoterapia
Uma atividade em que pudesse se sentir independente. Era isso que a deficiente visual Idalete Rosa, 62 anos, buscava quando decidiu se matricular em um curso de massoterapia, anos atrás. "Não depende de ninguém. É você, o creme, a espátula e o paciente", resume. Um desgaste na coluna não permitiu que desse sequência à atividade ou recebesse qualquer remuneração, mas o aprendizado foi válido e para quem recebeu das mãos de Idalete os devidos cuidados, o retorno foi positivo. "Acredito que desenvolvi a habilidade até mesmo pela deficiência visual. Sem que visse a pessoa ou qualquer parte do corpo dela, percebia, pelo toque, o quanto estava cansada", relata. Rosa nasceu com retinose pigmentar. "Enxergava vultos". A cegueira total veio aos 28 anos e Rosa formou família. Do casal de filhos, tem quatro netos. Quando vai ao mercadinho perto de casa, a neta de 11 anos é a companhia. "Ela pega o que é preciso, paga, confere o troco", diz. Ao lado do companheiro, que também é deficiente visual, mora no conjunto Maria Cecília, na zona Norte. "É uma casa normal, degrau baixinho e a gente acostumou. A casa é organizada, mas se a visita larga uma cadeira de qualquer jeito, a gente tropeça. Integrada à igreja e ao Instituto dos Cegos, conta que o companheiro toca teclado e gaita. "Gosto de estar no meio das pessoas. Deus não deu dons iguais a todos e embora não enxergue e sofra da coluna, de pressão alta, ácido úrico e meu benefício seja praticamente 100% para remédios, vivo bem. Fiz curso de orientação e mobilização para me sentir mais segura e é raro precisar de ajuda. Para os que enxergam, dá uma dica: "Quando for ajudar, não precisa puxar o deficiente, nem abraçar, basta oferecer o braço como sinal de apoio". (W.V.)


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