Manter a porta do comércio aberta e as contas em dia já está complicado. Comerciante se desdobra na criatividade, investe em atendimento e relata ao NOSSODIA que ainda arca com prejuízos como a entrada de cédulas falsas no estabelecimento. Há relatos em várias regiões da cidade e o delegado da Polícia Federal, Joel Moreira Ciccoti, adverte: "Moeda falsa é crime grave, pena de três a 12 anos de reclusão. Sociedade deve denunciar para evitar derrame de notas falsas."
Olho vivo e faro fino já não são tudo quando o assunto é a moeda corrente. Mais do que isso, comerciantes e comerciários lançam mão de todos os sentidos na hora de receber um pagamento em dinheiro, já que notas falsas estão correndo solto. "Tem que olhar bem e no tato também dá para sentir. Falta relevo, é diferente", detalha a fiscal de caixas de um supermercado da Avenida Rio de Janeiro, Juliana Aparecida Salviano, 28 anos. Com seis anos de experiência, Salviano não se livrou do golpe. "Um ano atrás entrou uma de R$ 100. Não dá pra bobear, principalmente porque o cliente gasta pouco e quer levar o troco alto em dinheiro verdadeiro." No supermercado em que trabalha, a nota é recolhida. "Caso o cliente se recuse, escrevemos bem grande na nota que ela é falsa para evitar que continue circulando". A comerciária destaca ainda que frequentemente tentam passar notas de R$ 20 e R$ 50. "É muito comum, mas estamos treinados", enfatiza.
Já a comerciante Milena Bernardi Chagas, 30 anos, escapou por pouco do golpe da moeda falsa. "Acredito que nem a cliente sabia. Foi uma situação constrangedora e percebi só de olhar. Com seis anos de atuação como caixa, a comerciante se considera atenta. "Era uma nota de R$ 50, a cliente estava com os filhos, vem sempre aqui e eu tive que recusar porque depois nem banco aceita." Para a comerciante, todo cuidado é pouco. "Acredito que nem ela percebeu que foi enganada. É um absurdo porque isso pode prejudicar pessoas inocentes e alguns estabelecimentos fazem o funcionário que pegou a nota assumir o prejuízo".
Quando a visão e o tato ainda deixam em dúvida a autenticidade do papel, entra em cena uma caneta usada por muitos comerciantes para evitar prejuízos. A comerciária Karina dos Santos, 26 anos, trabalha em um bazar na Avenida Saul Elkind, zona norte de Londrina, e tem a aliada como ferramenta de trabalho. "Quando acionada, a nota deve ficar amarela. Se ficar alaranjada e mais escura, é batata, falsa. Pode recusar", ensina. Mas a comerciária reconhece que em um dia de grande movimento bobeou. "Passou despercebido, foi o mês passado, não desconfiei, tava corrido. A cédula era de R$ 20 reais e acredito que nem a cliente sabia", reflete. (W.V.)
Polícia Federal apura casos
De acordo com o delegado da Polícia Federal Joel Moreira Ciccotti, o nome técnico deste crime é Moeda Falsa. "Previsto no artigo 289 do Código Penal e trata da falsificação. Já a introdução e a circulação no comércio ou a posse estão previstas no artigo 5º, um crime grave com pena de 3 a 12 anos de reclusão", ratifica. Ciccotti orienta: "os itens de segurança devem sempre ser verificados e quem se deparar com uma cédula falsa deve fazer o boletim de ocorrência para evitar um derrame de notas no comércio. A população pode acionar a Polícia Militar para que haja investigação. Mesmo que não recupere o prejuízo, colabora para que essa fraude contra um bem da união não tenha continuidade. Em um caso recente, a comerciante acionou a Polícia, e a mesma dupla já havia ido a outras lojas. No carro delas foi encontrada grande quantidade de dinheiro falso", alerta. (W.V.)
O comerciante Luiz Takata considera que a solidariedade entre os comerciantes seja um ponto positivo. "Trocamos informações e acompanhamos as notícias, soubemos que dias atrás estavam tentando usar de R$ 20." Com experiência de cinco anos no ramo, Takata passa adiante seus conhecimentos para os funcionários da loja de presentes. "Os caixas estão todos preparados".
As operadoras de caixa de um supermercado na região central estão habituadas com as constantes tentativas de golpe. "Tem cliente com nota falsa que escolhe caixa novata pensando que ela vai deixar passar. Mas se engana", relata Sandra Geronimo, 33 anos, 12 de experiência. "A conversa é sempre a mesma: ‘ah, acabei de sacar no caixa’, mas recusamos. Tentam com todas as notas e eu sei ver de longe". A também operadora de caixa Daiane Paulo, 25 anos, sete de experiência, confirma que o olho treinado faz a diferença. "Tentam passar a perna e ainda ficam com raiva por recusarmos a nota, mas noto a textura, o relevo e detalhes que confirmam que é uma nota verdadeira", diz.
A comerciante Rosi Souto, 57 anos, trabalha na loja de lingerie da filha, Bruna Souto, na rua Sergipe. Embora some 23 anos de atividade, ficou com o prejuízo. "Duas onças (R$ 50) falsas em um só dia. Estranhei um pouco o comportamento da cliente, mas estava com as filhas. Peguei os R$ 100 e ainda dei R$ 20 dos verdadeiros, de troco, para a danada", reclama. "Depois dessas trambiqueiras, se eu cismo, começo a perguntar onde pegou a nota e a pessoa desconversa, umas não compram, outras acham outra nota legítima na bolsa, mas rejeito porque depois não tem volta. Infelizmente é uma prática comum e lesa o comerciante". Em uma cafeteria próxima, a comerciante que preferiu não se identificar amarga recente experiência. "Consumiu R$ 7 com uma nota falsa e pagou com uma nota de R$ 100 falsa. A caixa não percebeu ao receber. É muita cara de pau", indigna-se . (W.V.)
As autênticas trazem elementos fáceis de serem reconhecidos
O site do Banco Central do Brasil traz informações precisas dos elementos que provam a legitimidade do papel moeda. "O papel legítimo é menos liso que o papel comum. A impressão apresenta relevo na figura da República (efígie), onde está escrito "Banco Central do Brasil" e nos números do valor da cédula da Primeira Família, entre outras informações. Vale a pena conferir no site www.bcb.gov.br. (W.V.)