Se já era triste viver numa área desprovida de higiene e de segurança, a situação ficou ainda mais dramática na última semana, quando os moradores do fundo de vale do Jardim Santa Mônica, na Rua ngelo Vicentini, zona norte de Londrina, receberam uma "cartinha" do Poder Judiciário do Estado, informando que devem deixar o local até o dia 28 de outubro, após a decisão de reintegração de posse.
Os moradores contam que o terreno teria sido doado por um grupo de vicentinos da cidade há duas décadas. "Inclusive, as casas possuem ligações de água e de luz e pagamos nossas contas para a Copel e a Sanepar corretamente. Não tem qualquer ligação clandestina aqui. Não temos documentações das casas, mas, como já vivemos aqui há 20 anos, não esperávamos que nos tirariam um dia", admite Sandra Balbino. "Sabemos que esta área foi doada por um grupo de vicentinos da região. Hoje, existem umas 20 famílias morando aqui", comenta a dona de casa, com o aviso de reintegração de posse nas mãos. O fundo de vale onde a comunidade se formou está localizado a poucos metros do ribeirão Quati.
Emocionada, ela revela que a notícia da reintegração de posse chegou em um momento delicado para a sua família. "Moramos em seis pessoas nesta casinha: eu, meu marido, meu filho, minha filha, meu genro e um sobrinho. Eu e meu marido estamos desempregados. Além disso, minha filha (adolescente) está grávida de seis meses", explica Sandra. "Nos pegaram de surpresa. Tenho medo de que a polícia chegue aqui e nos tire à força", acrescenta o vizinho Lauro Natel de Oliveira.
Apesar de ter apenas 14 anos de idade, a estudante Helen Geraldo Araújo também vive com a mãe e os dois irmãos pequenos a incerteza do futuro. Além da vida humilde, ela conta que o pai abandonou sua família há anos. "Dependemos só da minha mãe, que só tem uma banca onde vende alimentos aqui na rua. Ela não está neste momento (tarde de segunda-feira) porque foi tentar encontrar uma casa para alugar", disse a garota, que cuidava sozinha da moradia e dos dois irmãozinhos. Segundo ela, a mãe não possui familiares em Londrina e, caso não tenha condições de pagar o aluguel, todos irão morar na rua.
Lauro Natel, Wilson e Sandra: o medo de perder o teto impera no Jardim Santa Mônica
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O morador Wilson de Paula comenta que sua família já possui inscrição na Cohab (Companhia de Habitação de Londrina) há 15 anos. "Mas até hoje não nos chamaram", conta ele. "Muitos que conseguiram casa da Cohab já venderam as moradias e voltaram para a invasão. Agora, nós que estamos na fila há 15 anos, continuamos vivendo neste desespero", ressalta Wilson, mandando um recado para os que vão cumprir a reintegração de posse. "Se chegar aqui com o trator, vai dar meia volta e voltar com o trator nas costas. Não vão derrubar nossas casas", assegurou ele.
O NOSSODIA entrou em contato com o presidente da Cohab, José Roberto Hoffmann, que afirmou não possuir informações sobre a reintegração de posse no Jardim Santa Mônica, já que o espaço é de propriedade do município. Mesmo assim, adiantou que o "invasor" do fundo de vale do Jardim Santa Mônica não possui privilégios e que também não poderá ser atendido mais rapidamente. "Há 45 mil pessoas aguardando a casa própria em Londrina. A recomendação é que, assim como as demais, as famílias do fundo de vale do Jardim Mônica também aguardem serem chamadas." (P.M.)

De acordo com a 2ª versão do Programa de Desenvolvimento Urbano Sustentável de Londrina (BR-L1094), de julho de 2012, divulgado no site da Prefeitura, os moradores da ocupação relataram que a área era um pasto da família Vicentini, que deixou aos cuidados de um morador próximo do local conhecido como "Bimba". Ele foi residir no local e comercializava o sebo que era descartado pelo frigorífico vizinho. Ele teria dividido a área com "Zé" e "Nego", formando três chácaras. Cada um loteou sua chácara e comercializou ilegalmente os lotes no início da década de 1990.
Em 1997, quando havia menos de cinco famílias, os moradores foram até a Prefeitura e solicitaram o abastecimento de água e o fornecimento de energia elétrica, que lhes foram concedidos. Segundo levantamento realizado pela Cohab, em 21 de março de 2012, a população da época era de 27 famílias. Além disso, 73 famílias haviam sido atendidas com habitações no Residencial Vista Bela, pelo Programa Minha Casa Minha Vida, durante 2011 e 2012. (P.M.)