"Tratar o ser humano, independentemente da tipificação do crime que tenha cometido. É disponibilizado estudo, trabalho e orientação religiosa dentro de uma prática que visa a ressocialização", explica a vice-diretora da PEL II, Rosane Frossard. Muito além do discurso, os 950 apenados que formam a população carcerária da PEL II vivem a experiência como incentivos. "A vontade de melhorar, de não persistir no erro e principalmente saber que aqui não é um depósito de pessoas são fundamentais. Ao estudarem, passar no vestibular, como já acontece, e se comprometerem em atividades laborais, estão aproveitando essa oportunidade", sustenta Rosane.
Sobre as atividades de evangelização, ela esclarece que há grupos de diferentes religiões que atuam junto aos sentenciados na PEL II. "Os voluntários devem seguir critérios como ser uma entidade devidamente qualificada e esta é uma atividade de humanização que tem também o objetivo de que saiam melhores daqui", reforça.

Encontro a sete chaves
Sob blocos de concreto, grades e cadeados, a fé pede passagem. Quatro voluntários autorizados passam por revista, atendem a todos os pré-requisitos da unidade prisional e seguem para prática missionária junto àqueles que estão privados da liberdade. Só na área de contenção, sete portas de segurança separam o grupo evangelizador dos internos. Cerca de 20 homens escolhem estar diante da palavra de Deus. É horário de banho de sol e metade do grupo – de 40 presos - fez esta escolha. No pátio coberto, em cadeiras brancas, vestidos de camisetas brancas, ouvem sentados em filas e colunas. É um momento de reflexão. São ouvintes, mas também se expõem, pedem oração e querem a inclusão religiosa.
"Quem quer aceitar Jesus? Aceitar por inteiro?", questiona o missionário Sergio Augusto Negri. "Meu amor a eles é fraternal e acredito que podemos despertá-los para uma outra vida." Ao investir no outro, Negri, que é educador físico, justifica que o faz porque pensa na sociedade. Segue em seu discurso, que logo vira um diálogo. Apenados interagem. Diante da ampla sala, de pé direito alto, a voz de Negri ecoa e os penitentes não escondem seus sentimentos. A barreira física torna-se detalhe. Com a bíblia em mãos, Negri transpõe as grades, a bíblia "invade" o pátio coberto quando o missionário fala sobre a importância de perseverar com Deus na caminhada da vida. (W.V.)
‘Um pedacinho da rua’
A falta da família, da liberdade são rotina para R.J., 36 anos. "Eu não tenho visita, então quando vem alguém, é como se eu tivesse um pedacinho da rua, da sociedade e do mundo que está lá fora." Sobre os momentos de evangelização, resume: "São os únicos bons que levarei daqui e quero sair renovado", resume. J.V.G., 24, também está entre os internos. Durante a distribuição de livros, escolhe um de inglês. "A prisão está sendo uma aprovação de Deus. Eu era da igreja e quero voltar. Estou aqui há seis ou sete meses, prefiro nem contar, pois parece que os dias não passam". T.B., 30, está encarcerado há 10 anos e se responsabiliza pela organização dos livros. "Sinto falta das pessoas importantes que perdi. Aqui trabalho, estudo e essas atividades renovam a esperança porque o tempo vazio às vezes faz a gente pensar em coisas erradas." Prestes a concluir o Ensino Médio, o livro "A última Pedra", de Rogério Formigon, é a mais recente resenha feita no cumprimento da pena. Para D.H., 19, o propósito do estudo da bíblia é importante. Há oito meses no cárcere, em julho comemora 20 anos. "Se Deus quiser, não vou estar aqui", suplica. (W.V.)
Por meio de um trabalho voluntário, o pastor José de Melo, 71 anos, considera que seu contato tenha o poder de transformar vidas. Com 30 anos de atuação ministerial e cinco com sentenciados, Melo, que é professor de Filosofia aposentado, une-se ao pastor Sander Olak Alves, 39, e aos missionários Vicente Custódio de Melo, 64 e Sergio Augusto Negri, 39, com uma proposta planejada. "Por meio de um estudo, os apoiamos. Deixamos material, criamos uma sequência de estudo e percebemos o quanto alguns são vocacionados para a fé." Como resposta, Melo e os demais voluntários ficam satisfeitos com o retorno que recebem dos próprios detentos. "Ouvimos deles que estamos interessados em suas vidas, em ajudá-los e, à medida que vamos trabalhando, ganhamos confiança, estendemos a evangelização às famílias quando autorizados e esse elo é fundamental para o fortalecimento das duas partes dentro desse contexto", argumenta. (W.V.)