Notícias

Falta tudo por lá - Uma Vista nada Bela

04 jun 2015 às 09:01


Quando abre a janela de casa, poucas são as perspectivas da diarista Luzia Fátima da Silva, 43 anos. E um dos motivos é o fato de a filha de seis anos estar sem escola. "Já perdeu o ano", afirma, ainda que inconformada. "Eu fui cuidar do meu irmão que teve trombose, quando cheguei, deram a vaga para outra criança. Não achei justo, disseram que era para eu entrar na fila de espera que já tinha 50 e eu até pensei em parar de trabalhar", expõe Luiza.
Para a dona de casa Karen Alice Ribeiro, 25 anos, a questão da escola foi resolvida. "Minha filha de 10 anos vai com o ônibus fornecido pela Prefeitura e meu menino de quatro fica na creche aqui do Vista Bela. Mas aqui tem muito problema. Não é só falta de escola, não. Entre aqui na minha casa e você vai ver. Os fios da caixa de energia tão derretendo. Rachadura é pra todo lado", desabafa. Em outro extremo, Lucimara Lemos Polaki, 28 anos, se enxerga nos problemas das vizinhas. "Minha filha de nove anos eu levo todos os dias de aula até o ponto e meu menino de cinco tá aqui na creche. Eu consegui, mas no ano que vem, não sei como vai ser porque ele vai pro primeiro ano e não sei se na escola dela vão aceitar ele. Não temos escola, não temos posto de saúde e a minha casa, deixei até de pagar de tão ruim que tá a situação. Quando chove, entra água pelo forro e até filmei. A parede foi pintada porque manchou de tanta chuva. Tem muita rachadura e as tomadas, pode ver, olha a situação, já soltou tudo", aponta. "Quando a gente foi fazer a garagem, tirou 15 dessas pedras gigantes daqui e acho que com o tempo elas vão trabalhando e causam as rachaduras", mostra.

Sentimento de tristeza é coletivo
Segundo a psicóloga Carina Costelini Isper, é possível esse sentimento coletivo no Vista Bela e acredita na necessidade de ajuda a essa população. "Se, numa mesma comunidade, muitas pessoas se queixam dos mesmos sentimentos, como tristeza, angústia e desamparo, uma intervenção terapêutica em grupo poderia ser bastante útil e apropriada", disse.
Ela alerta na possibilidade do agravamento de estresse e depressão com o passar dos anos. "Em longo prazo, sem oportunidades de melhorias, pode ser um contexto favorável ao desenvolvimento de quadros como stress e depressão", aponta. "Para que esses sentimentos possam ser amenizados, é preciso agir: buscar ampliar as situações que possam gerar sentimentos opostos a esses, ainda que as alternativas sejam limitadas. É importante ainda tentar usar a criatividade para tentar, mesmo diante de um ambiente limitado, aumentar os momentos de prazer: cultivar as amizades, bater papo, fazer caminhadas, passear, jogar bola". (W.V.)


Walkiria Vieira

Luzia observa a filha: "Perdeu o ano"

Escola? Só em 2017
A previsão da Secretaria Municipal de Educação é de que uma escola será erguida por lá só em 2017, com capacidade para mil alunos. "Estamos em fase de elaboração do Chamamento Público para habilitar a futura empresa executora das obras", disse a diretora de planejamento e estrutura, Viviane Pitz, que admite receber muitas reclamações sobre a falta de escola no bairro. "Entretanto, todos os alunos das séries iniciais moradores desse empreendimento são atendidos em outras unidades escolares com transporte fornecido pelo município", justificou. (W.V.)


RESPOSTA CAIXA
Em nota, a Caixa Econômica Federal esclarece "que tem conhecimento de reclamações feitas por alguns moradores e já adotou providências para recuperação das unidades. Para os casos de vícios construtivos, a Caixa notificou a Construtora que efetuou a correção dos problemas reclamados e, para os casos de sinistro, foi aberto processo junto à seguradora e os imóveis foram recuperados. A Caixa ressalta que o Programa "De Olho na Qualidade" possui um canal exclusivo de comunicação com os clientes do Minha Casa Minha Vida pelo telefone 0800-7216268. O prazo para que as construtoras sejam notificadas é de 5 dias úteis e o beneficiário recebe um protocolo após o atendimento. (W.V.)

Abandonados
Perto de completar quatro anos desde a entrega da primeira chave, as falhas no residencial bem permitem batizá-lo de "Belo Erro". Segundo uma moradora que preferiu não se identificar, o salão de cabeleireiro do residencial tornou-se uma espécie de consultório psicológico. "As pessoas sentem que foram jogadas aqui. Não tem uma praça, árvores para tanta casa e as pessoas sentem falta dos amigos que tinham no bairro onde viviam, das facilidades de acesso do bairro e dos comerciantes. Não tem a menor estrutura e falar que mora no Vista Bela é motivo de sofrer preconceito. Muitas pessoas aqui estão com depressão e até medicadas por isso. São mulheres, adolescentes, crianças e até meu vizinho, um homem adulto. As pessoas se sentem marginalizadas, aqui não tem nada e quem pode, tá indo embora. Você não faz ideia como as pessoas estão doentes aqui. É muito preocupante porque as pessoas se sentem isoladas e sem ação. É muito triste", disse. (W.V.)


Continue lendo