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Face Leste: Do começo ao recomeço

24 nov 2014 às 08:16

Região que guarda o local exato do "nascimento" de Londrina – a mata do Marco Zero - passou por poucas e boas nestes 80 anos: agora vive tempos de expansão e de renovação da esperança

Tempo de tranformação

A valorização dos imóveis é uma característica que acompanha o desenvolvimento atual da Zona Leste de Londrina. Há 80 anos, era alí que a cidade surgia: a mata do Marco Zero foi o ponto de referência número um da cidade. Hoje, a avenida Theodoro Victorelli está mergulhada em um momento de transformação, ilustrado também pela instalação da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR), no Jardim Morumbi, e outros empreendimentos. Os moradores, claro, comemoram a revitalização e a valorização dos imóveis.
Na avenida São João, além do comércio pujante, o crescimento vertical salta aos olhos. Enquanto isso, boa parte das crianças ainda vão e voltam da escola, acompanhadas umas pelas outras e exalando aquela inocente alegria da infância. No Jardim Antares, casas novas reforçam que o sonho da casa própria de muitas famílias se concretizou por região.
Na avenida Robert Koch e redondezas, os condomínios horizontais também dão uma nova cara para a face Leste de Londrina. E só por lá que uma enorme seringueira divide a avenida, respeita o ambiente e valoriza o passado. É nesta artéria da região que está o Hospital Universitário, referência não só para quem vive por alí, mas para todo o Norte do Estado. A sua volta multiplicaram-se as residências e o comércio se sacode para atender todo mundo sempre com muito zelo. E quando o tempo esquenta, as sorveterias têm freguesia cativa.
O Aeroporto, mais do que bairro, é ponto de chegada, partidas e também de momentos de lazer para quem gosta de ver as "aves de aço" cruzando o céu na avenida Santos Dumont, via que reparte o Leste do Sul. No Jardim Ideal, na rua Rutilo, fica o cemitério Padre Anchieta, onde os que já se foram descansam e recebem homenagens de seus entes. Na avenida Jamil Scaff, as tantas igrejas sinalizam que a fé do povo é proporcional ao desenvolvimento da jovem cidade, que está sempre em busca de mais força para chegar ainda muito mais longe. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)


‘Fazedor’ de lembranças

Muito londrinense guarda em casa o álbum de couro montado pelo fotógrafo que chegava batendo palma e se oferecia para eternizar a infância de muitas crianças: a brincadeira na banheira, a corrida no velotrol, a diversão com a bola ou a bagunça de papinha. Tudo virava lembrança e era guardada com cuidado, num cantinho bem seguro. E na época em que ter uma câmera na mão era coisa para muito poucos ou profissionais da área, Eliseu Ferreira da Silva, 84 anos, construiu sua história.
Natural de Pernambuco, o primeiro trabalho foi na roça. "Com 25 anos eu já tinha dois sítios e arrendei tudo quando vim para o Paraná. Num instante aprendi sobre abertura, velocidade e fui longe na fotografia", conta.
Do casamento com dona Luzia, nasceram 12 filhos. Cinco vingaram. "Dei teto para todos casarem", orgulha-se. Por mais de 40 anos, Eliseu se dedicou à arte de fotografar. Fazia retratos para documentos e tornou-se também o retratista oficial daquela que era a zona do meretrício em Londrina. Na Antiga Vila Velha, onde hoje fica o Terminal Rodoviário, as garotas de programa posavam para Eliseu, pagavam pelo álbum e faziam a vaidade se transformar em um retrato na parede. "No começo a esposa reclamou, mas depois acabou entendendo e só parei quando me batizei", conclui. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)


O bom filho à casa torna

Assim como o Paraná, a cidade de Londrina foi enriquecida pela cultura japonesa. A miscigenação que acaou se tornando um traço marcante do povo brasileiro também se refletiu em misturas na culinária. E quando o assunto é comida, Ricardo Akira Kano, 55 anos, e Eleane Pascoalino de Lima, 49, entendem e são um exemplo de que misturar dá certo.
Ela é de Primeiro de Maio. Ele nasceu em Pirajuí, interior de São Paulo, e veio para Londrina com os pais, por influência da família Miguita. Juntando experiências, o casal está à frente do Restaurante do Japa, na avenida Jamil Scaff. De dia, o tempero dominante é aquele bem brasileiro de Eleane. À noite, Ricardo, o Japa, assume o comando e os sabores e odores da culinária chinesa dominam o ambiente.
Entre as opções estão o tradicional yakisoba, yakimech, karague, tilápia, lombinho e o bistecão do Japa. "Agora as pessoas não precisam sair da nossa região para comer bem", gaba-se Eleane, que não tem dúvidas de que a região vive um momento de franca expansão.
Moradores do Conjunto Alexandre Urbanas, Aeroporto, Antares, Santa Alice e Abussafe, por exemplo, já provaram e aprovaram o tempero da família. "Tem cliente que até pede o segredo da receita. Mas eu não revelo porque sei que foram anos e anos até o Ricardo chegar a esse sabor que agrada tanto", comenta Eleane. Ricardo voltou para o Brasil dois anos atrás para cuidar da saúde e considera Londrina o seu porto seguro. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)

Galera sangue bom

No número 520 da rua Santa Terezinha, na vila de mesmo nome, fica a segunda casa de muitas crianças e adolescentes da Zona Leste. Lá funciona o projeto Galera de Deus e é onde encontramos crianças sorrindo por um motivo simples: se sentem acolhidas e felizes na cidade em que vivem.
Segundo os idealizadores e coordenadores Maria Luiza Marinho Casanova, 49 anos, e Marcelo Casanova, 47, durante os cinco anos de atividade do projeto já foram atendidas em torno de 500 crianças. E neste tempo foram inúmeros os exemplos de que a transformação é possível. No dia 29 de agosto deste ano, Leandro completou 16 anos e conquistou o primeiro emprego graças aos seus esforços e também ao Galera. Ele estuda de manhã e a tarde é mecânico de bicicletas. "Minha mãe fala que se eu tô no projeto, tô bem cuidado", conta. O jovem tem 11 irmãos, mora no jardim Marabá e teve o primeiro contato com o projeto quando Marcelo distribuía verduras gratuitamente no bairro.
Diego Leonardo, o Léo, também 16, não esconde a maturidade. "O projeto foi como uma luz. Eu era um molequinho revoltado, briguento e por qualquer coisa estourava. Aqui percebi que as coisas se resolvem na conversa. Sei que não consigo mudar o mundo inteiro, mas posso mudar o mundo de uma criança", afirma. Léo tem quatro irmãos, mora no jardim Santa Fé e faz estágio no projeto. Recentemente, teve uma conversa olho no olho com o pai. Sem mágoa, colocou para fora o sentimento de vazio. "Nesses 16 anos, convivemos no máximo dez dias, falei o que sentia, que parecia que ele gostava mais dos outros filhos e que agora é hora de olhar pra frente, ser feliz e deixar o que ficou no passado para trás", fala, cheio de confiança. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)


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