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É a crise - Um bico aqui e outro ali

27 fev 2017 às 10:20


"Bico", do dicionário, trabalho informal, pequenos serviços. Na prática, é o que muitos trabalhadores formais ou não e os que forma recém-demitidos têm feito para garantir o sustento. É o caso do pedreiro Wilson Martins, 48 anos. Dispensado da construção civil recentemente, tenta se virar como pode. Nos dias de semana, se oferece para cuidar de carros no centro de Londrina e, após 12 anos com carteira assinada como porteiro, conta que não imaginava que teria tanta dificuldade para se recolocar no mercado. "Vou à agência do trabalhador, mas está tudo parado. Procuro vaga também como folguista, porque tenho experiência, mas está difícil", afirma. "Tem dia que dá pra ficar com R$40, mas tem dia que é bem menos, então tenho que ir juntando pelo menos para comer, porque a empresa ainda não fez o acerto", lamenta.
Moradora de Bela Vista do Paraíso, a comerciante Margarete Deciolo, 58 anos, considera que a prática seja mais comum do que se imagina. "Muitos pais de família precisam fazer extras porque se não se desdobrar, a conta não fecha." Em sua lojinha, o fiado tem lugar porque embora as pessoas passam por dificuldade, pagam. "Demoram mas pagam para manter a confiança, mas a maioria tem parado na loja é para reclamar que o dinheiro anda curto e o ‘bico’ corre solto. Tem até homem fazendo diária em casa de família, além de consertinhos de encanamento e parte elétrica", diz.
O eletricitário aposentado, Antônio José Colombo, 61 anos, afirma: "É o que mais tem hoje em dia. Uns preferem fazer ‘bico’ porque não gostam de ser empregado e, dependendo da qualificação, prosperam a autônomos e garantem o sustento", acredita. "Por outro lado, quem for se aventurar, é bom saber que precisa ter qualificação. Se o cara era servente de pedreiro e começar a se oferecer como pedreiro, não vai dar certo", alerta.
O massoterapeuta Elson Nunes também considera que a prática de incrementar o salário não seja uma novidade. Hoje em dia, também existe muita informação e as pessoas conseguem fazer pequenos reparos sem precisar desembolsar. Ou seja, também está complicado pra quem faz bico e o fato é que a grana está curta em todas as áreas. Eu mesmo, que não posso fazer extras por norma da empresa, sou controlado com as finanças e gasto menos do que ganho para viver bem", ensina.
Já o açougueiro Sorlei Aparecido Simão, 47 anos, tem um "bico" fixo, pois embora esteja há 12 anos no mesmo açougue e ame o que faz, considera o extra imprescindível. "Sem esse ‘bico’ seria difícil. Assim, quando não está atrás do balcão de carnes, trabalha como garçom, entregador de pizza e de gás. "E quando eu abro mão do ‘bico’ por conta de algum compromisso, passo para um amigo ou parente porque tem sempre alguém precisando de dinheiro",argumenta.

Faz parte
De acordo com o professor e Economia da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR) e Consultor Econômico da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Marcos Rambalducci, o complemento da renda deve ser encarado com naturalidade, uma vez que todos os setores foram afetados pela crise e seus profissionais sentiram na pele. "O tom pejorativo, ‘bico’ deve ser deixado de lado, uma vez que o trabalho é o mesmo, o que muda é ser formal ou não." De acordo com Rambalducci, as atividades alternativas devem ser encaradas como uma forma de flexibilização da renda devido ao momento de sensibilidade da economia. "Os professores que sofreram com redução de aula e salário, dão aula particular. Um motorista que tem um bom carro, faz serviços extras na mesma função, lembrando que é necessário ter a capacitação que a área exige, como nesses dois exemplos". Rambalducci destaca a inflação e o desemprego como fatores para o aumento das atividades extras para complemento do salário. "Quando a renda é insuficiente, trabalhar mais é uma necessidade para manter o padrão e o rótulo não cabe mais", argumenta. (W.V.)


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