Se o frio castiga quem possui agasalho, cobertor e uma moradia digna para se aquecer, imagina a quem vive dentro de barracos de madeiras encharcados, com lonas furadas, remendados com cacos de telha e restos de construção? Moradias que são invadidas pelo vento gelado e vulneráveis ao clima instável. Tudo cercado por muita lama. Essa é a realidade de centenas de famílias que sobrevivem em assentamentos de Londrina. Crianças são as que mais sofrem. Problemas respiratórios são comuns entre elas.
"A gente dorme abraçado. Eu, marido e três filhos: um ano e quatro meses, quatro e seis anos de idade. Para diminuir o frio, todos numa só cama", conta Francisca dos Santos, 23 anos, tremendo de frio com o filho nos braços enquanto dava entrevista na última terça.
Natural da cidade de Codó, Maranhão, ela conta que conheceu o frio há dois anos. "No Maranhão é calor o ano todo. O frio eu conheci em Londrina, há dois anos, quando cheguei em busca de uma vida melhor", conta ela. "Sofremos demais. Mesmo assim continuaremos em Londrina", afirma Francisca, explicando que vive com o benefício federal do Bolsa Família e com a renda dos "bicos" que o marido faz como servente de pedreiro. "Meus filhos têm problemas respiratórios. O caçula tem muita falta de ar. Sofremos junto com eles. Preciso muito de um inalador elétrico", desabafa a jovem no assentamento localizado na Rua Pitágoras, Jardim São Fernando, na zona leste de Londrina. Ocupação que completou dois meses.
Problemas se estendem aos vizinhos. Como na moradia de Joana d’Arc dos Santos, mãe de sete. "Dormimos sempre com duas cobertas. Por causa dos buracos no teto, a de cima molha e a debaixo fica seca para nos esquentar", diz Joana enquanto carrega os baldes de água que retirou de casa após a chuva.

As crianças são as que mais sofrem com as condições desumanas em que vivem
"Apelamos pra Deus, esperamos do povo"
Segundo Tânia da Silva, 30 anos, falta tudo no assentamento. "Precisamos de tudo. Não temos blusas, cobertores, calçados, comida, água, lonas para cobrir barracos", detalha ela, que está desempregada e mora no barraco com dois filhos adolescentes. "Apelamos pra Deus, esperamos do povo. Pedimos ajuda ao Cras (Centro de Referência de Assistência Social), mas a colaboração é mínima. A gente vive mesmo com o apoio da comunidade e das igrejas."
Segundo Sandra Nishimura, diretoria de Proteção Social Básica, o CRAS apresentou para famílias as formas de garantia e segurança oferecidas no campo social. Entre outros atendimentos, os moradores atualizaram inscrições no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal. Além do Bolsa Família, as famílias se cadastraram em grupos de geração de trabalho e renda do município. (P.M.)
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66 famílias carentes só em um terreno
No local há pelo menos 66 famílias, numa área de 8 mil m². Além dos adultos e idosos, cerca de 80 crianças: 55 até os seis anos de idade e 30 crianças acima dos seis. O terreno, de acordo com a Cohab (Companhia de Habitação de Londrina), é do Lions Clube de Londrina, responsável por construir um Centro de Apoio ao Paciente com Câncer (CAPC). Presidente do Lions, Simone Machado Chimentão ressaltou que mantém o projeto. O prédio terá três andares e espaço com 10 mil m². Porém, adiantou que não há data para que a obra seja inciada. (P.M.)
Água vem do córrego
Segundo Graziele Moraes, 29 anos, a água para higienização da comunidade vem do córrego que corta a região Leste, localizado a 100 metros do assentamento. "Os adultos tomam banho com água gelada mesmo. Já para crianças, fervemos a água", comenta. O local possui dois banheiros (feminino e masculino) comunitários.
Na terça da última semana, com uma pequena faca de cozinha, Edna Silva Messias, 40 anos, realizava os últimos reparos antes da noite chegar. O objetivo era diminuir o sofrimento dos quatro filhos pequenos que vivem no barraco. "A gente aproveita enquanto não chove. Mas, por mais buracos que a gente fecha com pedaços de pau e lona, sempre tem um lugar para o vento frio entrar. Quando chove, por exemplo, a água invade e passo a noite com uma vasilha segurando e tirando água", revela, adiantando que fez a inscrição na Cohab (Companhia de Habitação de Londrina) há 24 anos e até o momento não foi atendida. "Dizem que não há moradias para a zona leste." (P.M.)