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Doze mil pessoas vivem sem saneamento em Londrina

15 jul 2018 às 20:56

Todos os dias, a diarista Rivanete Lima da Silva, 46, enfrenta uma rotina de encher baldes de água na torneira coletiva da ocupação onde vive com a filha de 7 anos na zona norte de Londrina. Se ela não carrega os baldes, não tem como cozinhar, limpar, tomar banho ou mesmo se hidratar. O barraco onde as duas moram não tem água encanada, fossa séptica ou rede de esgoto. Sem banheiro, ela e muitos vizinhos fazem "as necessidades" em sacolas plásticas e despejam em buracos que começam a ser cavados no local para escoar dejetos de banheiro.

Para as estatísticas oficiais sobre saneamento básico em Londrina, porém, Silva e outras 12 mil pessoas que vivem nas cerca de 60 ocupações irregulares no município não existem. Ranking do Instituto Trata Brasil divulgado em junho, por exemplo, afirma que Londrina tem 99,99% de cobertura em saneamento básico. A Sanepar divulga estatística mais detalhada: enquanto 92% da população tem acesso a tratamento de esgoto, 8% usam as fossas sépticas, uma solução considerada adequada pelo Trata Brasil. As pessoas que moram em ocupações, porém, não integram essa conta.


"Não são contadas porque não há relógio para medir o consumo. Não podemos levar rede de esgoto porque esses terrenos são irregulares. É contra a lei", afirma o gerente da Sanepar na região nordeste do Paraná, Sérgio Bahls. Mesmo a oferta de água é precária. Em geral, quando as ocupações ocorrem, a Sanepar faz uma ligação coletiva porque, por motivos humanitários, não pode deixar as famílias sem acesso. "Os moradores também fazem ligações clandestinas que acabam se cruzando com valas de esgoto. Isso pode contaminar a água limpa que está sendo consumida pelas pessoas. Não há controle de qualidade, o que compromete a saúde da população desses locais", afirma.


Bahls informa que, há três anos, 5% da produção de água do município atendia as ocupações irregulares. Com o aumento do número de pessoas vivendo nesses locais, porém, o volume dobrou e, hoje, 10% da produção atende essa população. Esse líquido é tecnicamente contabilizado como "perda" pela Sanepar, o que levou a companhia a cair quatro posições no Ranking do Saneamento do Instituto Trata Brasil, que enumera a qualidade do saneamento nas cem maiores cidades brasileiras. No ano passado, Londrina ocupava a 9º posição, mas caiu para o 13ª por perdas na distribuição.


"Se não há programas de casas populares e controle social, não resolve o problema", considera o gerente, reforçando que a Sanepar não pode regularizar a oferta de água ou construir rede de esgoto nesses locais. "É uma população que está à margem", lamenta. Ainda conforme Bahls, para melhorar o acesso ao saneamento em áreas regularizadas do município, a companhia investiu R$ 300 milhões em cinco anos. Há previsão de obras na zona norte para preservar a bacia do ribeirão Jacutinga e também para ampliar o atendimento da estação Esperança, na zona sul.


POPULAÇÃO INVISÍVEL
Alheia às imposições da legislação, a diarista Rivanete vive pela primeira vez em uma ocupação. Desempregada e sem condições de pagar aluguel, ela buscou a "invasão" localizada ao final do conjunto São Jorge (zona norte) por falta de alternativas. "É muito difícil, não tenho condições nem de cavar uma fossa", conta ela. Um dos vizinhos é o pedreiro Antônio Teodoro da Silva, 66, que vive de bicos, estava sem renda fixa e decidiu ocupar um terreno com esperança de chamar atenção para quem possa ajudá-lo. Ele tem cavado buracos – que chama de fossas – para os vizinhos despejarem os dejetos do banheiro, mas na própria casa ainda não conseguiu resolver o problema. O filho trabalha como servente de pedreiro e à noite entrega pizzas. Saiu da escola antes de finalizar o ensino fundamental para aumentar a renda da família, mas mesmo assim não conseguem o necessário para viver em um ambiente urbanizado. "Quero que ele estude para ter futuro, mas como ir para a escola morando aqui?", lamenta.


No assentamento conhecido como Aparecidinha, também na vizinhança do jardim São Jorge, a família do trabalhador rural autônomo Dimas Ferreira da Silva, 56, vive com a família em um barraco há mais de quatro anos. Ele já cavou duas fossas para dar conta dos dejetos e usa água que puxou da rede da Sanepar para higiene e cozinha. "É complicado porque tenho que pagar para cavarem as fossas, é muito mais fácil morar onde tem esgoto. Ninguém vive sem água e luz", analisa ele, que espera que o poder público regularize o local e finalmente ofereça a estrutura necessária para as famílias viverem.


No outro extremo da cidade, no jardim União da Vitória 4, o autônomo Carlos Roberto do Espírito Santo vive sozinho há mais de dez anos em uma casa improvisada sem rede de esgoto. Ele cavou uma fossa para jogar os dejetos do banheiro, mas admite que a água da pia da cozinha e do tanque é lançada na rua, assim como faz a maioria dos vizinhos. O resultado são as valas de água suja correndo ininterruptamente a céu aberto pelas ruas do bairro.

No União da Vitória 6, a zeladora Angélica Armanhi também vive há dez anos em condições precárias provocadas pela falta de saneamento básico. A casa dela é de alvenaria e tem fossa séptica, mas o cuidado não adianta nada nos dias de chuva. "Aqui tem muita pedra no solo, a água não tem para onde correr e a fossa transborda. O muro de casa já desmoronou duas vezes e não é difícil ver fezes pela rua quando a chuva é forte. Infelizmente vivemos em um esgoto a céu aberto", lamenta.


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