A chuva até ameaçou cair, mas o que se viu na tarde deste domingo (2) foram centenas de arco-íris colorindo as ruas de Londrina que serviram de passagem para a 2ª Parada Cultural LGBTI+. Com o tema "Somos família e seremos família", o evento reuniu cerca de 9 mil pessoas, segundo os organizadores, para pedir respeito a lembrar que gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, intersexuais e outras denominações também têm pai, mãe, irmãos, avós, tios e primos que os apoiam e estão na luta contra o preconceito.
Com quase o dobro de participantes da primeira edição, que mobilizou cinco mil pessoas em setembro de 2017, a parada mostrou à sociedade que a cada dia é maior o número de pessoas LGBT dispostas a ir às ruas para exigir respeito e que seja qual for a orientação sexual, todo cidadão tem o direito de ser tratado com dignidade. Além dos londrinenses, engrossaram o movimento caravanas de várias cidades do Paraná e interior de São Paulo.
Membro do Movimento Construção e uma das responsáveis pela comunicação do evento, Mariana Valle explicou que o tema sugerido para esse ano permite dois desdobramentos. O primeiro é a importância da instituição família para a pessoa LGBT e de que forma ela interfere na construção da identidade dessa pessoa. "A família é um suporte para as pessoas se sentirem fortalecidas e vencerem as barreiras do preconceito em outros ambientes sociais", destacou.
O outro desdobramento acerca do tema é discutir as diversas nuances de família e propor uma reflexão sobre o que se entende por família. "Uma família afetiva também é uma família. Seja uma família de duas mulheres, dois homens, de avós e netos, todas são famílias. Algumas pessoas que têm uma posição diferente da nossa tendem a não entender a gente enquanto família", observou Valle.
Representante do coletivo Mães pela Diversidade em Londrina, Andreia Regina Cavalari fez um apelo para impedir a violência resultante da homofobia. "Pedimos para que todos saiam do armário com seus filhos e que parem de matar os nossos filhos. Tirem o seu preconceito do caminho porque nós vamos passar com nosso amor."
Apresentadora oficial da parada pelo segundo ano consecutivo, a drag queen Melissa Starr ressaltou a importância do evento para mostrar à sociedade que os LGBTs não são promíscuos. "Gays, lésbicas, trans também trazem amor e alegria, nós também temos família. Todo mundo conhece um gay, uma lésbica ou tem um dentro da sua própria família", disse. Neste ano, a drag dividiu a tarefa de animar os participantes com o londrinense Dicesar Ferreira, que dá vida à drag Dimmy Kieer. "A única coisa que eu posso fazer por quem tem despeito da gente é dar pinta e rebolar", debochou Ferreira.
Caminho longo
A parada deixou a concentração, na esquina da avenida Paraná com a rua Pernambuco, por volta das 15h, subiu a rua Pio XII e desceu pela avenida Higienópolis. No trajeto de pouco mais de uma hora, algumas reações, embora discretas, indicavam que ainda há um longo caminho a ser percorrido pelos LGBTs até a conquista do pleno respeito à diversidade sexual e de gênero. "Para que isso?", perguntou um senhor de 72 anos que preferiu não dizer o nome. Morador de um edifício nas imediações da avenida Higienópolis, ele desceu para observar o movimento e, ao mesmo tempo em que dizia respeitar todo tipo de manifestação, questionava: "Olha só, se fossem só homens mais velhos, mas tem uns meninos novinhos no meio desse pessoal. O que eles vão ganhar com isso?"
Ao ser lembrado pela reportagem que muitos morrem vítimas da homofobia, rebateu: "Mas aqui não tem ninguém agredindo ninguém. Eu mesmo respeito", garantiu ele, antes de proferir uma série de comentários homofóbicos contra os participantes da parada, a maioria deles, impublicáveis. Os manifestantes chegaram ao Zerão pouco depois das 16h. No local, foi montada uma estrutura de palco com iluminação e telão e vários shows estavam previstos para acontecer até as 21h30. "Nosso evento é pacífico e aberto para todo mundo que quer somar, não só para o público LGBT. A gente quer que o amor em todas as suas formas seja respeitado e que tenha tolerância. Todo mundo está aqui para se divertir, mas também é um evento político porque estamos em um espaço público e a gente tem direito de ocupar esse espaço", destacou Valle. (S.S.)