Advogada Ana Carolina Arnaldi: "A mudança assegurou direitos para as empregadas domésticas"
Há 30 anos, a empregada doméstica Lúcia Maria Santos, 61 anos, dedica seu talento em cuidar da casa alheia a uma mesma família: Jaime, Vita e Álvaro. "Quando entrei, o Álvaro era criança de tudo. Hoje ele é casado, tem uma filha linda que me chama de vó Lúcia e fico feliz de ter participado das transformações da família. O Álvaro chegava para almoçar com uns quatro amigos da escola e era aquela farra. Até hoje os amigos ainda frequentam a casa da família e eu também chamo a atenção do Álvaro quando precisa. Brinco e brigo com ele e eu me sinto amada". O relato de Lúcia mostra um pouco de seu cotidiano profissional e que a deixa realizada. Dentro da casa da família, tem obrigações, ao mesmo tempo em que é vista como autoridade dentro de suas atribuições, assim como se sente amada e respeitada. "Já trabalhei em outras casas antes e não tenho uma queixa, pois os patrões sempre fizeram, das tripas coração, por mim. Acredito que seja uma relação em que um ajuda o outro", reflete. Natural de Feira de Santana, Lúcia foi criada em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. A caçula de seis filhos começou a trabalhar aos 10 anos de idade, logo que seus padrinhos, que a criavam, morreram em um acidente. "Fui levada para morar com uma família. Eu era uma criança, cuidando de duas. Tinha hora que a gente tava brincando no tapete e eu acabava dormindo. Lembro que eles tinham um cachorrinho e eu era tratada como uma pessoa de confiança, mas não cheguei a frequentar escola", conta. "Fui aprender a ler aqui na Catedral, num curso noturno e aprendi a assinar e a ler placas", alegra-se. Moradora do Conjunto Ernani Moura Lima, Lúcia tem uma filha, a Talita. Seu marido, o Cláudio, é aposentado e juntos somam sete netos. Devota de Nossa Senhora Aparecida, atribui à santa a saúde da filha. Conhece Aparecida do Norte, onde fica o Santuário de Nossa Senhora. "Eu ia para o trabalho com a Talita e reconheço como meus patrões foram importantes." Na lida com o serviço da casa, considera que a agilidade de dar conta de tudo seja a sua principal qualidade. "Lavo, passo, cozinho, faço faxina e meu feijão é muito elogiado", diz. De seu ponto de vista, um bom patrão deve saber chamar a atenção com respeito, quando isso for necessário. Para quem pensa em trabalhar em casa de família, dá algumas dicas: "Não pode fazer tempo ruim; nada de mexer no que não te pertence; nem sair falando do que ouve ou vê - porque quem é de fora não tem que saber o que passa dentro de uma casa onde a gente trabalha" ensina.
Harmonia entre patrão e empregado
Na casa de família em que Marcia Aparecida Venâncio, 34 anos, trabalha, em Ibiporã, a harmonia entre patrão e empregado também é referência. Casada, mãe de Silvio, de 17 anos, e Enzo, de seis, Marcia divide sua rotina e se alegra em ver a casa da patroa um brinco e a dela, outro. "Eu sei que vou chegar em casa e limpar, já me acostumei e a cozinha limpa, brilhando, me deixa muito feliz. É uma realização", diz. E quando o assunto é serviço bruto, Márcia não foge à luta: desencardir uma roupa com água sanitária pode ser mais rápido, mas não é a melhor solução para a peça. Para limpar uma roupa, cômodo ou móvel, é preciso ter paciência e, acima de tudo, boa vontade", pensa. Há nove anos com a mesma família, Marcia fez um intervalo na dedicação à família da patroa Sirley para cuidar do filho mais novo. "Não viam a hora que eu pudesse voltar". Quando o quesito é organização, Márcia dá show e sabe, mais que a patroa, onde estão roupas ou objetos da casa, às vezes esquecidinhos. "Aquele travesseiro que foi parar no baú, sei onde está guardado", explica. No caso de Márcia, os encontros com a patroa são raros, pois a dona da casa trabalha fora. Bilhetes e ligações, funcionam como meio de comunicação. "Quando chego já vou ver se tem bilhete e dá certo." O quarto do casal, o cuidado com os cachorros, a limpeza da calçada e o destino do lixo, são deveres de Márcia e ela se sente realizada com o que faz e pela confiança que conquistou. "Gosto de trabalhar concentrada e quietinha", diz.
Advogada destaca motivos para comemorar
De acordo com a advogada especializada em Direito Previdenciário, Ana Carolina Arnaldi, Lei Complementar 150, de 1º de junho de 2015, promoveu mudanças positivas para a categoria. "O patrão passou a ser obrigado a depositar o FGTS e também mudou a maneira de o empregador pagar o INSS. A partir desse marco criou-se também o E-Social (com pagamento de INSS, depósito de fundo de garantia, seguro contra acidentes de trabalho e um fundo para dispensa sem justa causa) e o patrão passou a fazer o pagamento de uma única guia". A advogada destaca que o registro de trabalho à empregada doméstica já era uma garantia desde 1970 e estabelecia parâmetros. "O marco de 2015 regulamentou a jornada de trabalho, férias e formalizou direitos e representa uma conquista recente". (WV)