Inúmeras pessoas passam o dia no lixão a céu aberto no Jardim Monte Cristo, localizado na rua Ernesta Galvani dos Santos, zona leste de Londrina. Sem utilidade para maioria da população, os objetos descartados viram renda aos coletores, uma alternativa para própria sobrevivência. Adolescentes, mulheres e homens desempregados vasculham o espaço em busca de alumínio, cobre, plástico reciclável (ou reutilizável) e tudo que tiver o mínimo valor. Atividade insalubre, porém os riscos se tornam insignificantes diante da necessidade financeira de cada um.
"Tem que trabalhar com as mãos, mas também com os olhos", adianta Alessandro Vieira, de 41 anos, um dos mais antigos frequentadores do espaço, que considerada a atividade uma espécie de garimpo. "Sou catador, faço esse garimpo no lixo há cinco anos. Não tem um dia ou um horário para revirar isso, tem que ficar em cima dele de manhã até a noite."
Ele revela que não consegue emprego com carteira assinada há muitos anos. Realidade que o fez a ir morar na rua. O dinheiro que consegue com a venda dos objetos retirados é usado para a alimentação. "Moro na rua, dependo disso para comprar alimento e sobreviver. Durmo por aqui mesmo, na zona leste."
O material mais cobiçado neste garimpo é, sem dúvida, o cobre. Diariamente, Alessandro afirma vender entre R$ 50 e R$ 100 do objeto. "Estou atrás de alumínio, ferro, cobre, roupa, brinquedo. Equipamentos eletrônicos, como celulares, rádios e televisões. A gente desmonta e retira tudo. O mais valioso é o cobre, que custa R$ 10 aqui na zona leste e R$ 14 nos ferros-velhos do centro." Para Alessandro, a maior parte da população não tem noção do valor dos objetos que descarta.
Ele revela ainda que até dinheiro já encontrou por ali. "R$ 250, que estavam dentro de uma bolsa. As pessoas se esquecem do que tem dentro dos objetos e acaba jogando fora", avalia o desempregado. "No começo deste ano, encontrei também um bom celular, um Samsung Galaxy, que custa mais de R$ 500", ressalta. "Mas tudo tem o seu preço, até mesmo esta embalagem de água sanitária", mostra ele o objeto. "O quilo disso aqui custa R$ 1,50. Uma garrafa desta já pesa quase um quilo. É o plástico mais valioso", exemplifica Alessandro.

Alimentos também são despejados por lá e, muitas vezes, são recolhidos pelas pessoas
Também desempregada, Ingrid Caroline Ferreira, de 20 anos, percorre o espaço na companhia do irmão de 16 anos de idade. A jovem explica que também vai ao local diariamente. "Faço isso desde 2014, quando fiquei desempregada. Tenho um filho de quatro anos e tiro daqui o dinheiro para comprar comida, roupa", salienta. "Para mim, vale e muito a pena. Venho todos os dias", admite Ingrid, que também comercializa boa parte dos materiais coletados no ferro-velho. Assim como Alessandro, Ingrid destaca também o desperdício de parte da população. "O desperdício é muito grande. As pessoas jogam bons objetos. O problema é que, muitas vezes, não os encontramos a tempo e estragam na chuva ou no fogo." Ela diz que aproveita os móveis em boas condições na sua residência, no Jardim Monte Cristo. "Encontramos muitos objetos para casa. Já levei muitas coisas: armário, sofá, colchão, mesa, cadeira, poltrona, suporte para o (forno) micro-ondas. Tenho uma amiga que até encontrou o berço e o carrinho para o seu bebê", relembra ela. A CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização), por meio da sua assessoria de comunicação, orienta que o coletor informal procure se associar a uma cooperativa de reciclagem. O vínculo pode garantir a continuidade de renda aos coletores que atuam no Jardim Monte Cristo, área de descarte irregular. A assistente social Nádia Oliveira de Moura, da Secretaria Municipal de Assistência Social em Londrina, informou que o único Cras (Centros Regionais de Assistência Social) da zona leste atende sete mil famílias referenciadas, inclusive as que frequentam o espaço para coletar materiais recicláveis. Segundo ela, os grupos fazem parte dos programas de benefícios sociais do Governo Federal e utilizam o Cadastro Único (foma em que as famílias cadastram seus dados para ingressar em uma série de benefícios sociais). (P.M.)
Equipamentos de proteção adequados não são usados para o trabalho no lixão a céu aberto do Jardim Monte Cristo. O próprio catador Alessandro Vieira apresenta ferimentos pelo corpo, principalmente nas mãos. Segundo ele, são causados por cacos de vidro, ferro e vegetação. Apesar da exposição, garante que raramente fica doente. "O maior perigo é quando o lixo pega fogo. Além da fumaça, tem o risco de explosão. Não sabemos o que está no meio disso tudo", admite. Muitos objetos acumulam água parada e podem contribuir para o desenvolvimento do Aedes aegypti, transmissor da dengue.
Segundo o estudo "Situação Social das Catadoras e dos Catadores de Material Reciclável e Reutilizável", de 2013, divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a atividade é preocupante. Entre os riscos, estão "o calor, a umidade, os ruídos, a chuva, o risco de quedas, os atropelamentos, os cortes e a mordedura de animais, o contato com ratos e moscas, o mau cheiro dos gases e a fumaça que exalam dos resíduos sólidos acumulados, a sobrecarga de trabalho e levantamento de peso, as contaminações por materiais biológicos ou químicos, etc", aponta. (P.M.)