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Centro: Londrina se encontra aqui

10 nov 2014 às 08:41

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"Quando os pés vermelhos caminham pela região central de Londrina, os olhos conversam com a cidade"

Para celebrar os 80 anos de nossa cidade, o NOSSODIA dá de presente para os leitores uma série de reportagens especiais destacando as diferentes regiões e personagens; nesta edição, o foco é a região central, onde se cruzam as histórias de todos os londrinenses.

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Referências históricas

O Centro é o ponto de partida da história de Londrina. Na região estão a Biblioteca Pública, museus, bancos, restaurantes, rede de serviços, lojas variadas e a Catedral Metropolitana. E nem é preciso andar muito para ir de um lugar a outro. Quem quiser ainda pode encurtar caminho atravessando o Bosque.
Diante de tanta comodidade, tem muita gente que escolheu a região para morar. E isso acontece desde que Londrina somava apenas algumas décadas. Naquela época, as famílias mais abastadas ergueram casarões na região central, que até hoje se destacam pela arquitetura imponente e referência histórica.
É o caso, por exemplo, de um casarão construído na década de 1940 na rua Maragogipe, pertencente à tradicionalíssima família Sahão. Lá ainda estão as roseiras branca e vermelha, plantadas pela avó do advogado Michel Sahão, 51 anos. A mangueira, anterior à construção do imóvel, ainda agora destaca-se no quintal ao lado de pés de abacaxi, jabuticaba, figo e especiarias.
"Nasci nessa casa com a ajuda de uma parteira", conta Michel, numa referência à memória afetiva que tem com o casarão de 26 cômodos e mais de 500 metros quadrados. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)


Um pirata na família

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Nascido na Vila Nova, um dos bairros mais antigos do Centro de Londrina, o taxista David Haill, 64 anos, guarda muitas fotografias desde a época em que ainda era um bebê. Só na primeira casa, morou 24 anos e muitas são as recordações das brincadeiras na Rua Tibagi. "O taco de bets era feito de balaustre e minha mãe sempre encontrava tempo para o bate-papo na cerca, embora fosse costureira", conta.
Entre tantas histórias e fotos, uma ganha destaque: a do bisavô com sua perna de pau. Mesmo no antigo retrato de família, a prótese torneada continua chamando atenção. "Sempre falei que sou bisneto de pirata", revela, completando que essa identificação familiar permeou toda a sua infância. "Meu bisavô foi um desbravador e deve ter sofrido horrores. E era ele mesmo quem fazia a própria perna de pau", fala, cheio de orgulho.
E talvez o bisneto de Frederico tenha herdado a característica de "Professor Pardal" do parente "pirata". David afirma que também é bastante criativo e gosta de colocar a mão na massa em tudo. E conta sempre com o apoio da esposa Maria da Glória. A casa da família também é cheia de relíquias, o que dá um toque de personalidade em cada cantinho. Lá estão o traçador de lenha que usava com o pai, o velho ferro à brasa, lembranças de viagens e uma fonte d’água. "Tento fazer a minha parte preservando a nossa história", reflete. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)


Amores duradouros

Benedito Gonçalves da Silva tem a idade de Londrina, 80 anos, e há 50 trabalha no mesmo lugar. No porão do antigo Franz Hotel, no Centro da cidade, ele ainda fabrica calhas, encanamentos, floreiras, churrasqueiras, cestos de roupa, conchas para cereais e mais uma infinidade de itens em metal. Com seu ofício, também ajudou a construir a cidade. "Comecei aqui em abril de 1964. Em Londrina, nesta época, eram só três prédios: o Manella, o Santo Antônio e o Autolon. Onde é o Julio Fuganti hoje, havia um posto de gasolina, acredita?"
Da sala com piso e paredes originais, Dito, como é mais conhecido, viu a cidade crescer – principalmente para cima - e já perdeu as contas dos tantos edifícios que contaram com sua contribuição. "Fiz uma cirurgia recentemente, mas tô sempre bolando alguma coisa", garante, exibindo praticamente a mesma vitalidade dos tempos da juventude.
Na parede de tijolo sem reboco, uma placa reforça que ali funciona a Funilaria Franz. "Antigamente, trabalhavam aqui cinco, seis pessoas. Hoje eu toco tudo sozinho. Lembro uma vez que fizemos 227 caixas para um hotel, ainda na época da construção", orgulha-se.
Mas não é só a trajetória profissional que faz este inventor incansável gostar desta terra. Este mineiro nascido em Montes Claros ressalta que foi em Londrina que conheceu o grande amor de sua vida: a também mineira Mariana Rosária, com quem está casado há 55 anos. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)


Uma baiana londrinense

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Quando o assunto é hospitalidade, a nutricionista Eliene Pires de Oliveira, 53 anos, coloca Londrina em primeiro lugar. Natural de Jequié, na Bahia, ela se mudou de mala e cuia para a pequena Londres em 2013, por conta da transferência do marido, que é teólogo. "Eu não conhecia ninguém e amei o povo daqui. É um povo amável, dado, acolhedor e bem parecido com os baianos", elogia.
Em uma loja no centro da cidade, a nutricionista oferece orientação para quem busca bem estar e qualidade de vida por meio da alimentação equilibrada. A formação da profissional foi uma grande conquista alcançada só depois de criar os filhos. "Fiquei 17 anos dentro de uma casa e só então fui estudar. Comecei o curso na Bahia, precisei me transferir para o Rio Grande do Sul e concluí a faculdade no Paraná, mas antes disso já pesquisava bastante sobre alimentação vegetariana", comenta.
Essa guerreira de sangue baiano, coração londrinense e mãe de dois moços - Thiago, 28 anos, e Lucas, 27 - reforça que a primeira impressão que teve de Londrina foi das melhores. "Eu digo que foi amor à primeira vista e quero fixar residência aqui. Já sonho com um apartamento e desejo que todos em Londrina se sintam felizes e seguros." (Walkiria Vieira/NOSSODIA)

Encontros cotidianos

Quando os pés vermelhos caminham pela região central de Londrina, os olhos conversam com a cidade. Para o alto, o Relojão do Edifício América. Para o chão, o Calçadão da avenida Paraná. Tudo, cada quadradinho de paver ou petit pave, é um pedaço da história que segue sendo contada. O Centro acarinha quem nasce, recebe quem chega, despede-se de quem parte, embala esperanças, promove encontros entre quem está à procura de alguma coisa e quem está sempre pronto a atender. E da janela dos arranha-céus, dá para espiar tanto o movimento frenético de pessoas e carros quanto o horizonte inspirador e desenhado pelo progresso.
De olho no cotidiano da cidade, duas mulheres espiam quem vem e quem vai. Ana Telles e Maria Rosa Oliveira, ambas com 54 anos, trabalham como cabeleireiras na rua Sergipe e adoram observar a partir do ponto de vista de onde passam a maior parte do dia o enroscar de sacolas e gente num dos endereços mais tradicionais da região central. "Tudo acontece aqui", celebram. "Daqui a gente vê quem passa, o movimento do comércio e até o Estádio do Café", apontam as amigas e sócias.
Osaíra Aparecida Dias, 41 anos, é uma dessas "londrinenses" apaixonadas pela região central e confessa, sem vergonha, que "adora bater perna na Sergipe". "Faz 27 anos que eu só compro na Sergipe. Aqui a gente encontra o que está na moda, coisas boas e com preço barato. E gastar pouco é a melhor coisa. Por isso, se preciso tanto de utilidade doméstica, como uma roupinha nova, corro pra Sergipe", dispara a moradora da Zona Norte.
Ponto de chegadas e partidas da região central, o Terminal Urbano da rua Benjamim Constant é outro espaço onde todas as rotas se cruzam. Plantado ao lado do Museu Histórico Padre Carlos Weiss, nele se juntam o Norte e o Sul, o Leste e o Oeste. Moradora do Jardim Acapulco, na região Leste, a balconista Maria de Lourdes Santos, 57 anos, só circula de ônibus. E sempre tem uma coisa ou outra a fazer na região central. "Fiquei viúva há 11 anos e meu marido me deixou o carro, mas eu nunca aprendi a guiar. Por isso, o transporte público acaba ajudando muito nestas horas. E com tanta dificuldade para estacionar no Centro, o pessoal da vila sempre se esbarra no ônibus mesmo", diverte-se.
Já quem está perdido pode buscar orientação noutro endereço importante do coração de Londrina: o Edifício Oscar Fuganti, que fica bem em frente ao tradicional Edifício Júlio Fuganti. Por lá, há 10 anos o porteiro Edvaldo Aparecido de Paula, 52 anos, indica o rumo certo para centenas de pessoas todo santo dia. "Vem gente dos bairros e até de outras cidades. É gente indo ao médico, advogado e às compras. Aqui o que mais chega é gente perdida", comenta. "Se eu ganhasse um extra com tanta informação, estava rico. Mas eu gosto de explicar, fico satisfeito em poder ajudar e quando não sei, prefiro não confundir", brinca Edvaldo, que mora no Conjunto Ernani Moura Lima, na Zona Leste, mas se sente um privilegiado por trabalhar no Centro. (Walkira Vieira/NOSSODIA)
Do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste, toda a cidade se encontra no Terminal Urbano

No Calçadão, tem gente que ainda consegue arrumar um tempinho para apreciar a vida sem pressa


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