O vereador é o representante dos desejos da população, ele integra o Poder Legislativo na Câmara Municipal. Além de elaborar, debater e votar nas leis que conduzem a cidade, é responsabilidade do legislador supervisionar o trabalho do prefeito e do vice. Porém, para alguns eleitores, a assembleia de Londrina deixou tudo isso um pouco de lado e se tornou "palco" para "bate-bocas". Cada vereador recebe mensalmente R$ 12.900, fora verbas de gabinete e outras mordomias.
Os dias de agitação na casa legislativa ganharam repercussão nacional. Em Londrina, o assunto esteve na boca do povo. Para a professora Iraci Fonseca, o pouco tempo de trabalho dos vereadores não vem sendo usado como ela esperava. "Deveriam trabalhar pelo povo. Por falar em trabalhar, trabalham muito pouco pelo alto salário que ganham. Ainda perdem esse tempo com ‘picuinhas’", reclama ela. "Os bons projetos e a fiscalização ao prefeito ficam em segundo plano", avalia.
O autônomo Fábio Ricardo de Souza responsabiliza os novos eleitos pelos momentos de exaltação na casa. "Tirando os (vereadores) mais antigos, será difícil legislar nesse lugar. Entraram muitos vereadores irresponsáveis neste ano, imaturos e mal assessorados. Falam sem pensar, depois dizem que não queriam magoar, que tudo não passou de um engano", ironiza. Já o comerciante Ederson Luiz da Silva, que acompanha as sessões há anos, afirma que "bate-bocas", retratações e discussões não são características dos dias atuais. "Concordo que o papel do vereador foi deixado de lado e que vem fracassando muito neste ano. Mas não é especial dessa (atual) turma, isso já acontecia nos últimos mandatos. É que as pessoas passaram a acompanhar agora, após muita repercussão das brigas recentes", observa. (Paulo Monteiro/NOSSODIA)
Últimos episódios
O mês de maio reservou episódios acalorados. Entre eles a sessão do dia 4, que teve de ser suspensa inúmeras vezes. Os sindicatos que organizaram a greve do dia 28 de abril foram ao Legislativo protestar contra Filipe Barros (PRB), que divulgou um vídeo chamando os manifestantes de "vagabundos". No dia 2, ele confessou, no plenário, ter se excedido na elaboração do vídeo, mas manteve o tom das críticas, que teriam sido direcionadas aos sindicalistas.
O "bicho pegou" também no dia 3. Desta vez entre Jamil Janene (PP) e Emerson Petriv, o Boca Aberta (PR). O episódio ficou conhecido como "UFC Câmara". A reunião da Comissão de Justiça da Câmara teve que ser interrompida por conta da discussão, protagonizada entre Jamil Janene e Boca Aberta. Os ânimos se exaltaram quando o projeto de Regularização Fiscal (Profis) era discutido.
Após o "bate-boca", já no dia 4, Boca Aberta protocolou requerimento solicitando afastamento (não remunerado) de até 120 dias da Câmara. Porém, no dia 9, o vereador voltou atrás e pediu para retirá-lo de pauta. Em discurso, o parlamentar disparou críticas contra colegas. Com faixas nas galerias, mais de 50 apoiadores de Boca foram até a Câmara protestar. Depois de ter o pedido acatado por presidente da Câmara Municipal de Londrina, Mário Takahashi (PV), Boca Aberta comemorou a notícia com os manifestantes. Vale ressaltar que o mandato dos atuais vereadores termina no dia 31 de dezembro de 2020. (P.M.)
‘Casa do povo’ em crise
De acordo com o analista político Elve Cenci, após quase 10 anos de calmaria, o desprezo e o despreparo instalaram a crise na Câmara de Vereadores. "Em 2008, tivemos uma crise no Legislativo, com escândalos de corrupção na Câmara. Em 2012, ocorreu uma crise no executivo, com o mandato cassado de um prefeito. Na sequência, tivemos quatro anos de relativa tranquilidade. Porém os vereadores eleitos em 2016 trouxeram uma nova característica ao legislativo", avalia.
"A casa em crise atrapalha o andamento normal da Câmara. A própria imprensa, que costuma a dar projeção aos projetos dos legisladores, passou a dar espaço à crise, que travou o debate no Legislativo. Isso tomou conta da Câmara devido ao despreparo no desempenho da função de alguns vereadores", acrescenta Cenci.
"Além disso, vivemos numa cidade de 600 mil habitantes, complexa, num momento de desemprego alto. Fatos que produzem efeitos colaterais. A demanda pelos serviços sociais é maior, por outro lado faltam recursos por parte do poder público", explica. "Os vereadores deveriam estar preocupados com isso, porém direcionam o seu tempo para outras questões." Na visão do analista, há desprezo por parte de alguns vereadores. "Por parte de alguns, existe ainda um desprezo pelos que pensam diferente. A discussão política permite a defesa do pensamento, mas deve se respeitar a pluralidade de pontos de vista. Porém isso não foi respeitado nos episódios recentes", conclui. (P.M.)