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APÓS 2 ANOS - MP oferece 1ª denúncia da chacina

28 jan 2018 às 20:16

Dois policiais militares foram denunciados pelo Ministério Público por tentativa de homicídio contra três homens que estavam em um bairro da zona sul de Londrina. O crime ocorreu na madrugada do dia 30 de janeiro em meio à chacina que resultou na morte de 12 pessoas e deixou mais de dez feridos. A série de assassinatos e tentativas de homicídio foi registrada após a morte do policial militar Cristiano Bottino no final da tarde de 29 de janeiro, na zona norte da cidade. A partir daí, os crimes foram cometidos em diversos bairros da cidade durante a madrugada do dia 30.
Na denúncia, o promotor Ricardo Alves Domingues relata que os policiais Jefferson José de Oliveira e Leandro da Silva Crepaldi se uniram para executar as vítimas. "Enquanto o denunciado Jefferson José de Oliveira pilotava a motocicleta, Leandro Silva Crepaldi, empregando uma arma de fogo, com inequívoco propósito de matar, disparou os projéteis". Conforme o promotor, os baleados foram socorridos de imediato e testemunhas reconheceram os envolvidos no crime. Os nomes dos atingidos pelos disparos não serão revelados a pedido da promotoria.
Seis testemunhas foram requeridas pelo MP. Além das vítimas, outros dois policiais militares e um delegado da Polícia Civil. O promotor pede a aplicação de medidas cautelares como a suspensão do porte de arma, a suspensão parcial da função pública; a proibição de qualquer contato com as testemunhas do caso e que os denunciados compareçam periodicamente em juízo. Os advogados dos policiais não foram encontrados para conceder entrevista.
Esta é a primeira denúncia oferecida pelo Ministério Público de um dos crimes relacionados à chacina. Logo após a série de assassinatos, seis policiais militares foram presos. Outros fatos vieram à tona como a morte de um carroceiro em março de 2016 e locais de crimes adulterados com a intenção de comprometer as investigações. Em ambos os casos, a promotoria apontou o envolvimento de policiais militares, alguns já considerados suspeitos de participação na chacina. Os PMs foram liberados meses depois. Procurada, a PM retornou os contatos.
Ao todo, há 17 inquéritos em andamento para apurar homicídios e tentativas de homicídios ocorridos no final de janeiro de 2016, em Londrina. Nos últimos dois anos, o MP encaminhou dezenas de ofícios aos órgãos oficiais e a Sesp (Secretaria de Estado da Segurança Pública) solicitando mais agilidade na análise dos materiais apreendidos. (Viviani Costa/Grupo Folha)

Demora compromete investigação
Dois anos depois, a conclusão das perícias ainda deve demorar pelo menos nove meses para serem concluídas. Logo após os crimes, um delegado de Curitiba foi designado especialmente para apurar os fatos. Porém, de acordo com o delegado de Ibiporã, Vitor Dutra de Oliveira, responsável pelos inquéritos relacionados à chacina, um excesso de perícias na capital fez o caso retornar à Londrina.
Parte dos itens como celulares, HDs e pendrives retornou ao Instituto de Criminalística de Londrina. Os materiais que demandam análise mais complexa permaneceram em Curitiba. "Há uma dificuldade enorme de investigação por causa de indícios de envolvimento de agentes públicos. Nesses crimes, eu dependo muito mais dos resultados das perícias do que das diligências que têm que ser feitas", afirma.
Segundo informações obtidas pela reportagem, há mais de 600 celulares e centenas de outros equipamentos apreendidos em diversos crimes que estão na fila de espera para perícias no Instituto de Criminalística em Londrina. Em nota, a Sesp (Secretaria de Estado da Segurança Pública) informou que todas as necropsias solicitadas foram realizadas pelo Instituto Médico-Legal e os laudos entregues à Delegacia de Homicídios de Londrina. Já em relação à demanda repassada ao Instituto de Criminalística, "foram mais de cem exames relacionados a estes casos e a maioria dos laudos já foi concluído e encaminhado às autoridades respectivas. Restam, no Instituto de Criminalística, apenas dez exames, da área de equipamento computacional, que ainda estão sendo elaborados". (V. C.)

Familiares esperam por justiça
Tanto tempo depois, as famílias das vítimas ainda enfrentam as consequências daquela noite trágica. Todos os dias elas buscam a prisão dos responsáveis pela morte de seus filhos. Maria de Fátima Freitas Rodrigues, mãe de Adriana Rodrigues,34, assassinada há dois anos se diz inconformada porque até hoje não houve punição dos assassinos. "A gente quer respostas, porque até agora elas não vieram. Depois que ela morreu os policiais e promotores mantiveram contato somente até três meses depois do assassinato. Depois parou tudo. Ninguém mais deu notícia, nem a promotoria, nem nada. Aquietou. Parou", reclamou.
Ela explica que agora ela toma conta do filho da Adriana, que é especial. "A gente espera justiça. Prenderam todos e depois soltaram", declarou. Rodrigues revelou que depois que a Adriana morreu, o governo interrompeu o pagamento da pensão destinada a seu filho especial. Ela ingressou na justiça para que o pagamento da pensão fosse retomado, mas isso só aconteceu um ano depois. Nesse período, Rodrigues revelou que teve que se desdobrar para conseguir recursos para sustentá-lo.
Marco Antônio Modesto, pai de outra vítima da chacina, Matheus Henrique Cyrillo Modesto, 21, disse que tudo ainda está muito obscuro. "Foi provado pela investigação a ligação da morte do carroceiro na Warta (zona norte) com as mortes do jardim Bandeirantes (zona oeste) e no jardim Planalto (zona norte), onde meu filho foi morto com outras três pessoas. A gente quer entender o porquê, quem autorizou, quem deu a ordem para que isso acontecesse, para que esse milícia agisse? Queremos justiça". (Vítor Ogawa/Grupo Folha)


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