Na moradia de Maria Alves de Oliveira, 60 anos, a velha estante é que sustenta a parede e, consequentemente, o telhado do imóvel, na rua Tadao Ohira, Jardim Franciscato, zona sul de Londrina. "Na forte chuva da última semana, a água suja desceu com tanta força pela via que invadiu a minha casa. Fiquei com água pelo joelho", relembra ela. A situação se repete ainda em outros bairros e assentamentos carentes, localizados nas extremidades da cidade. Comunidades sem serviços básicos, como saneamento, abastecimento de água potável e eletricidade. Além da total falta de recursos, os temporais, registrados com maior evidência na primavera e no verão, elevam a insegurança dos moradores.
A dona Maria é uma das pioneiras do Jardim Franciscato. Ela é o marido ergueram a humilde casa há quatro décadas. Disposição não faltou também para colaborar com os vizinhos e ainda brigar pelas melhorias da região, como pela pavimentação das ruas. Porém, hoje, se consideram esquecidos. Eles não possuem sequer condições financeiras para reformar o imóvel e evitar que o teto caia sobre suas cabeças. "Meu barraco tá caindo, literalmente. Como o nosso bairro está em um terreno muito íngreme, a chuva, junto a ratos e lixo, desce com violência. Invade a moradia por cima e por baixo. O vento ameaça arrancar as paredes de madeira", diz a mulher, que, apesar da idade, afirma que ainda não se aposentou.
O telhado também está comprometido. Para diminuir a quantidade de chuva dentro de casa, pedaços de papelão ocupam o lugar de telhas. As paredes do quarto são de madeiras compensadas. Na área externa, os pedaços de caibros seguram a varanda, onde dormem cães. "Além dos 40 cachorros, vivemos eu e meu marido neste endereço. Ele (marido) cuida de carros e eu faço sabão para vender. Mas o que ganhamos por mês não chega a um salário mínimo (R$ 937)", relata Maria.
Junto ao risco de ficar desabrigada, a precariedade do lugar compromete a saúde da família. "Sobre a minha cama há um cupinzeiro. Os cupins começam a ‘roer’ a madeira sobre a cama, e os farelos caem sobre mim. Isso causa muita alergia. Olha a minha pele", mostra a mulher a região do tórax, toda avermelhada de alergia. (Paulo Monteiro/NOSSODIA)

‘Com o que ganho por dia, compro dois pacotes de arroz’
Há mais de 20 anos as famílias ocupam o fundo de vale do Jardim Monte Cristo, próximo à rua José Ferreira da Silva, zona leste de Londrina. Atualmente, cerca de 30 famílias vivem por lá. Há muito barro ao redor das moradias. Em dias chuvosos, os caminhos até as casas ficam inundados. A energia elétrica e a água são instaladas pelos próprios moradores. As residências não são servidas por rede de esgoto e as fossas recebem os dejetos. Quase todos os moradores sobrevivem de coleta e venda de materiais recicláveis.
Porém, a renda nunca é suficiente para manter a família, afirma a recicladora Ellen Cristina Aparecida Fracaroli, 22 anos, que é mãe de duas garotas. "Faz três anos que vivemos aqui. Eu e minhas duas filhas. A gente tira entre R$ 30 e 60 por dia. Mas não dá para comprar tudo para dentro de casa. Com o que ganho por dia, compro dois pacotes de arroz", relata. As crianças do assentamento frequentam escolas e creches dos bairros vizinhos. Apesar das dificuldades, muitas famílias se desenvolvem na comunidade. Motivo de orgulho para quem resiste no local há décadas. "Hoje vivo com a mulher e três netos. Mas moro nessa área há mais de 20 anos, onde criei os três filhos. Hoje são todos adultos, trabalhadores, e não moram por aqui", destaca José Silva Filho, 57 anos, que possui um pequeno depósito de materiais no quintal de casa, onde faz a separação para reciclagem.
A precariedade não impede que mais pessoas se instalem no pedaço. Ao contrário, Elias Batista de Oliveira, 60 anos, diz que os vizinhos apoiam no que pode. Atualmente, vive em um cômodo, disponibilizado pelo sobrinho. Porém ,ressalta estar em busca de um terreno para levantar a própria moradia para abrigar a mulher e os quatro enteados. "Antes, preciso de dinheiro. Hoje tento trabalhar como reciclador ou furando fossa, mas sou pedreiro de profissão", diz ele. "Está difícil ganhar dinheiro com essa chuvarada toda. Por enquanto sobrevivo com a ajuda dos amigos e parentes", comenta. (P.M.)
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ALUGUEL NUNCA MAIS
A recicladora Patrícia Danziger, 50 anos, se mudou há cinco anos para um terreno aos fundos do Jardim Primavera, extremo norte da cidade. A mulher comenta que fez o seu cadastro na Cohab (Companhia de Habitação de Londrina) para a aquisição da casa própria, porém não foi chamada para assinar o contrato. "Tenho inscrição na Cohab há mais de cinco anos. Eu pagava aluguel, mas chegou uma hora que o dinheiro não dava para colocar comida. Foi nesse momento que decidi me mudar para este terreno", revela ela, que mora com o marido e o filho de 12 anos na ocupação, onde há pelo menos outras 30 famílias. "Aluguel nunca mais", reforça.
Na zona oeste de Londrina, aos fundos do Cilo 3, existe uma comunidade com as mesmas características, onde vivem 40 famílias. Numa delas a da dona de casa Zaida Franciele de Souza, 19 anos, na rua Pateó. "Neste lar vivemos eu, o esposo e os dois filhos. Chegamos há quatro meses. Vem outro filho em breve: estou grávida de três meses", anuncia a jovem.
Zaida revela que também sonha em um dia conquistar a casa própria da Cohab. No entanto, caso isso não ocorra, diz viver feliz, apesar da carência de recursos. "Funcionários da Cohab passaram por aqui, visitaram as casas e pegaram os nomes de cada um. Disseram que iriam formalizar e atualizar os cadastros das famílias. Isso já faz uns quatro meses", conta. "Meu marido é ajudante de pedreiro. Vivemos com R$ 400, R$ 600 por mês. Não é todo dia que aparece trabalho", detalha. "Sim, falta dinheiro, mas gosto do lugar onde moro. A maior dificuldade é para achar vagas nas creches da região. Estão todas esgotadas", conta. (P.M.)

Cohab tem 68 mil registros
A esperança de cada família é adquirir um imóvel do município. De acordo com a assessoria de gabinete da presidência da Cohab, a atual administração reassumiu a política de construções de moradias habitacionais, que estaria paralisada há quatro anos. Ela divulga que os diálogos foram retomados com a Caixa Econômica, responsável pelo financiamento dos imóveis populares. Segundo a assessoria, o único programa de habitação em vigência seria o Minha Casa Minha Vida.
"A Cohab trabalha exclusivamente para atender os casos de interesses sociais. Antes da última gestão, existia ao menos 900 famílias. Hoje são quase quatro mil com renda de até R$ 1.800 por família", informa o gabinete. Na habitação urbana, o programa Minha Casa Minha Vida é dividido em faixas de grupos relacionados à renda familiar mensal. A renda de até R$ 1.800 estaria dentro da faixa 1.
"No total, há hoje 68 mil famílias em nosso cadastro. As prioridades são atender os inscritos de acordo com a fila de espera, e também, é claro, as famílias em extrema vulnerabilidade social, conforme o levantamento técnico elaborado pelo departamento de assistência social da Cohab", acrescenta. (P.M.)

Cadastro Único tem 43 mil famílias
De acordo com a direção de proteção básica da Secretaria Municipal de Assistência Social, as famílias de baixa renda são cadastradas em programas sociais federais, apoiados com recursos do município e do Estado. Números divulgados em setembro apontam que Londrina teria 43 mil famílias registradas no Cadastro Único, forma em que os grupos cadastram seus dados para ingressar numa série de benefícios sociais. Cadastro Único que identifica e caracteriza famílias, permitindo ao governo conhecer melhor a realidade socioeconômica.
Há também 17 mil e 296 famílias (cerca de 53.418 pessoas) cadastradas no Bolsa Família, segundo a Assistência Social. Os benefícios são recebidos no Cras (Centros Regionais de Assistência Social). O Bolsa Família é um programa de transferência direta de renda, direcionado às famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza, de modo que consigam superar a vulnerabilidade social. (P.M.)