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A luta diária de quem convive com o Alzheimer

05 ago 2018 às 21:22


É preciso encarar o Alzheimer com outros olhos e o apoio ao tratamento se estende a familiares e cuidadores. Especialistas enfatizam a necessidade de deixar o preconceito de lado e (OMS) Organização Mundial de Saúde alerta que número de pessoas que vivem com algum tipo de demência triplique até 2050.
Uma leve tremedeira. Esse foi o primeiro comportamento estranho que chamou a atenção da família de dona Ruth Galvão Guerreiro. Daí em diante, segundo um de seus netos, o contador Rodrigo Guerreiro, foram cinco anos de convívio com a doença. "Nesse período, ela só foi definhando e a memória já não era a mesma. Uma experiência muito triste", resume. Os cuidados em casa eram acompanhados por profissionais e em outubro de 2014, aos 85 anos, ela faleceu. A agente da Zona Azul Fátima Regina de Souza, 44 anos, também conviveu com o Alzheimer na família. "Minha mãe foi ficando repetitiva de repente e era muito difícil, para mim e para os netos, encontrar com ela naquela situação porque ela sempre foi ativa. Com o desenvolvimento da doença se tornou agressiva e não gostava que fossem à casa dela", recorda. O tratamento de Dona Maria Aparecida de Souza, a mãe de Fátima, incluiu medicação – parte liberada pelo SUS (Sistema Único de Saúde), e outra bancada pela família. "Eram muitos remédios. Ela tinha dificuldades para dormir e a convivência maior foi com minhas irmãs, pois morava com elas. Somos dez filhos, então, cada um ajudava um pouco, mas é cansativo. Precisamos pagar para alguém pelo menos acompanhar ela de noite porque é puxado", desabafa. Dona Maria já havia feito uma cirurgia no coração, fazia tratamento e faleceu aos 78 anos, por complicações de uma pneumonia, o que exigiu 20 dias de internamento.

Grupo oferece apoio
O Instituto Não Me Esqueças tem como presidente a professora universitária Elaine Mateus e a manifestação da doença em sua mãe, hoje com 80 anos, foi ponto de partida para a formação do grupo. "Existe desde 2015, foi fundado oficialmente em 2017 e, por meio de palestras e campanhas, conscientizamos sobre o que é a doença, porque ela ainda é estigmatizada e nós mesmos, com o diagnóstico em mãos, sentíamos falta de informação e de um suporte pós-diagnóstico", explica. Segundo Elaine, o próprio nome do instituto tem como objetivo reforçar a importância de falar sobre a doença, entendê-la, bem como não deixar que se apague e caia no esquecimento. Elaine ressalta: "Nós, que estamos saudáveis, não podemos nos esquecer das pessoas com Alzheimer. Os números são alarmantes. A OMS trata como epidemia e essa é uma doença que exige comprometimento multidisciplinar e disposição da família", afirma.
Ela explica ainda que diante das mudanças de comportamento do parente acometido, a insegurança torna-se permanente. "As perdas são diárias e a família convive com o luto". Aprender a lidar com esse sentimento, assim como descobrir novas formas de amar e de interagir com o pacientes, estão entre as propostas do grupo. Com fundamentação de profissionais especializados, o Não Me Esqueças orienta sobre a importância de manter a pessoa amada engajada em atividades físicas, mentais e sociais. "Isso irá ajudar no processo de criação de momentos positivos, que podem diminuir ou aliviar o estresse e os sintomas comportamentais que afetam as pessoas com Alzheimer. Atividades podem ainda ajudar na autoestima, na qualidade física e nas atividades do cotidiano", orienta. A solidão de quem cuida e as fases da doença também são tema do grupo, que é gratuito e aberto. Conheça mais em www.naomeesquecas.com.br. (W.V.)

Dá para prevenir
De acordo com o geriatra Marcos Cabrera, a doença acomete mais pessoas do sexo feminino. "Há uma maior prevalência em mulheres, em pessoas menos escolarizadas, em pessoas com diabetes, hipertensão e pessoas que fazem menos exercício físico e mental." E alerta: "Sendo assim, o jeito de prevenir é controlar bem estes fatores, o único que não conseguimos é o sexo da pessoa, os demais dependem do nosso esforço." Ainda segundo Cabrera, há um tipo especifico Alzheimer que acomete famílias. "Este também não há como prevenir. Infelizmente, o que temos a fazer é mudar o estilo de vida, ainda não temos nenhum remédio que evite a Doença de Alzheimer", reforça.
Diante de um diagnóstico conclusivo, o especialista orienta o envolvimento da família. "Inicialmente, é importante reconhecermos que este é um diagnóstico da família toda. Todos acabam se envolvendo. Depois, precisamos deixar claro que é possível viver com qualidade e dignidade. Mesmo tendo a Doença de Alzheimer, não devemos achar que tudo está acabado. Os medicamentos são importantes, mas as medidas de envolvimento social e afetivo, engajamento em atividades recreativas e pedagógicas ajudam muito a evolução dos pacientes", afirma. A memória por si só não é um grande sinal, segundo Cabrera. "Podemos ter um prejuízo da memória como envelhecimento normal. Mas quando percebemos que estamos com dificuldade de realizar coisas que fazíamos com certa facilidade, quando ficamos muito repetitivos e principalmente quando as pessoas que nos conhecem bem dizem que estamos mais esquecidos, talvez seja este o melhor momento para um avaliação", sinaliza. (W.V.)


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