O dia 27 de abril marcou o primeiro dia de frio deste ano em Londrina. Entre as várias lembranças proporcionadas pela mudança repentina do clima, Francisco e Alda comemoraram discretamente, na mesma simplicidade como sempre levaram a vida, o sexagésimo aniversário de casamento, as bodas de diamante. Festa mesmo, só fizeram no fim de semana seguinte, com a visita das quatro filhas, 11 netos e quatro bisnetos.
Francisco Aranda Fernandes, de 86 anos, nasceu em São Carlos (SP) e chegou a Londrina aos 8 anos de idade. Dois anos depois, mudou-se para o Patrimônio Selva, de onde nunca saiu. Ainda hoje, mora em um sítio, numa casinha feita de peroba que ajudou a derrubar nos primeiros anos de colonização. Os filhos construíram uma casa de alvenaria na propriedade, mas ele e a mulher, Alda Fernandes, de 82 anos, não se adaptaram. "Aqui me sinto bem, não preciso de mais que isso", comenta Fernandes.
No patrimônio, não há quem não conheça seu Francisco Aranda Fernandes. Para os mais antigos, é o homem abriu clareiras em meio à floresta para fazer estradas, como a que liga os patrimônios Selva e Colorado. "Cheguei a morar em ranchinho de palmito com meus pais e irmãos. Se disser que tenho saudades, estou mentindo, porque era uma vida muito dura. Mas tenho boas lembranças", conta. O antigo traçador, espécie de serra usada para a derrubada das árvores nativas, é guardado como relíquia. "Vou mandar dar um trato nele. É bom conservar a história da família", diz.
Em uma noite de baile no patrimônio, Fernandes conheceu Alda, uma jovem que tinha chegado havia pouco no patrimônio. "Eu morava com minha irmã aqui perto. Quando bati o olho nele aquele dia já sabia que ia ser para vida inteira", relata Alda. Depois de um ano de namoro, casaram-se na Igreja Matriz da recém-criada Diocese de Londrina, no dia 27 de abril de 1956. "A igreja ficou pequena para tanta gente que apareceu", lembra.
A história de vida simples do casal intrigou seu Francisco Aranda Fernandes sobre o motivo da visita da reportagem. No microcosmo do Patrimônio Selva, ele tem papel de protagonista social. Alheio à discussão polarizada sobre a política nacional, o agricultor aposentado sempre fez política, ainda que inconscientemente. Se, de acordo com o ex-presidente Washington Luís, governar é abrir estradas, o pioneiro começou no caminho certo. E foi muito além: colonizou, produziu, incentivou, amparou. Tudo isso sem nunca pensar em uma candidatura sugerida por amigos.
Ao avaliarem a trajetória, Fernandes e Alda sentem-se recompensados. "Apostamos todas nossas fichas nesta terra e vencemos. Tenho muito orgulho em ver a família reunida e bem. É uma sensação de dever cumprido", relata. Ao ser questionada sobre o segredo para alcançar as bodas de diamante, Alda não hesita: "Não há segredo algum. O problema é que as pessoas complicam demais. A felicidade está nas pequenas coisas da vida". A maior alegria do casal é ir à missa aos domingos e almoçar com a família reunida. Durante a semana, admiram os pássaros, e conversam com os vizinhos sobre as mudanças que ocorreram no Selva. "O patrimônio é bem pequeno. Quem vê hoje pensa que sempre foi assim, mas a gente viu muita coisa mudar, muita gente chegar e ir embora."
No descampado da antiga mata que virou pasto, dois exemplares de árvores nativas foram preservados: um de peroba e outro de óleo pardo. Assim, como Fernandes e Alda, o "casal" de gigantes da mata resiste firme ao passar do tempo no Sítio São Domingos. "Minhas dores nas costas já não permitem que eu vá lá com frequência, mas daqui de casa fico observando as copas frondosas. Elas têm um significado muito especial para mim." E ao verem os avôs fortes como cerne, os netos já não duvidam que as bodas de diamante possam dar lugar às de carvalho. "São só mais vinte anos. Passa rápido", brinca Fernandes. (C.F.)
Geada negra de 1975
Depois da mata aberta, vieram as lavouras de café. Fernandes na lida e Alda em casa, com as crianças. "Essa história vocês já sabem como termina, né? Em um dia frio, como hoje, veio a geada e matou tudo", relembra, referindo-se à geada negra de 1975, a pá de cal na cafeicultura paranaense. A recuperação das perdas do café veio com o leite. Os campos foram ocupados por gado leiteiro. Quase toda a produção era entregue em um laticínio na cidade. O excedente ele vendia de porta em porta pelas ruas do patrimônio.
Nesta época, fortaleceu a amizade com os cerca de 300 moradores locais, número que se permaneceu estável nas últimas décadas. Com sua charrete, percorria a lenta marcha dos tempos anteriores ao leite longa vida. Ao escutar as repicadas dos cascos dos cavalos, os moradores o saudavam com o litro na mão, um recipiente de vidro retornável. O queijo da dona Alda também ficou famoso. "O povo gostava muito. Alguns ainda perguntam se eu não faço, mas sem o leite gordo não tem como."
O casal seguiu com a rotina até 2004, quando a atividade também deixou de ser lucrativa. Por algum tempo, Francisco Fernandes seguiu distribuindo leite para famílias carentes que não podiam ir até a cidade comprar. "Aqui é bom porque todo mundo é amigo, todos se ajudam. Na cidade, só gosto de passear. É muita agitação", compara. Hoje, eles vivem com o dinheiro das aposentadorias e do arrendamento de parte da propriedade para o cultivo de soja. (C.F.)
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