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21 mil pessoas só em Londrina - O mundo paralelo do analfabetismo

29 mar 2017 às 19:40

Dados do último censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Londrina conta com mais de 21 mil pessoas que não sabem ler e escrever. Ainda de acordo com a pesquisa, o número de matriculados nos cursos de Educação para Jovens e Adultos (EJA) é baixo. A Coordenadora da EJA, Déborah Flora Barbosa, explica que hoje são 532 educandos matriculados do 1º ao 5ºano. Podemos absorver todo esse número, os mais de 21 mil", afirma. Barbosa considera que o número considerado alarmante se deve a fatores como o aumento de assentamentos, ocupações, o aumento das construções e o movimento migratório. "Propusemos um estudo diferenciado com 19 projetos pedagógicos em que os alunos participam do processo que vai além da alfabetização básica para as crianças, por exemplo. É uma alfabetização voltada para a cidadania, para o mercado de trabalho, o lazer e saúde. Alguns estão em busca da primeira carteira de habilitação. Por isso, há cinco escolas trabalhando juntas as especifidades da legislação de trânsito dentro do processo e alfabetização." Segundo a secretária de Educação de Londrina, Maria Tereza Paschoal de Moraes, o índice de evasão é pequeno. "Os que ingressam gostam e ficam graças ao fato de especificidade de cada educando ser trabalhada", garante. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)


Walkiria Vieira

Lourival Felipe Guimarães: "Só fiz até o segundo ano primário"


No cotidiano dos que não sabem ler e nem escrever
Depois de escolher o presente, o cartão e pagar, a dona de casa A.C, 63 anos, pede para a vendedora escrever a mensagem para a amiga que receberá o presente. Essa é uma das situações embaraçosas e que literalmente dificultam a comunicação. "Eu prefiro falar que minha letra é feia. É constrangedor", resume. Gerente administrativa de uma loja de roupas no centro de Londrina, Roberta Fonseca, 42 anos, convive com essa realidade: "Para fazer o crediário dos que não sabem ler e nem escrever há um termo de contrato diferenciado e no lugar da assinatura é o polegar. Percebo que são pessoas mais velhas, que não tiveram oportunidade e muitas vezes começaram a trabalhar na roça crianças", diz. O vendedor de frutas ambulante Lourival Felipe Guimarães, 74 anos, explica que tem pouca leitura. "Mas tenho. Fui até o segundo ano da escola e com nove anos já comecei a trabalhar cortando rami, depois virei servente, carpinteiro e precisava ajudar em casa". Seu Lourival, assim como os 12 irmãos, não foi além dos três primeiros anos escolares. Morador do Jardim Santiago, é natural de Cambará e reconhece: "Teria mais oportunidades com mais estudo, mas eu mesmo não quis estudar mais. Só queria trabalhar." Com a vista que não ajuda muito, diz que lê pouco e com dificuldade. "Preciso de óculos e acompanho o que está acontecendo pela televisão". No segundo ano do Ensino Médio, o estudante Juan Felipe de Melo, 17 anos, está decido a fazer o curso de Direito. "Quero ser policial federal e não consigo imaginar a vida sem saber ler e escrever. Acredito que a comunicação não seja possível. Como passar e receber informação?", reflete. (Walkiria Vieira/NOSSODIA)


Quando o primeiro passo é decisivo
Marcelo Henrique Machado, 28 anos, é professor de História e já atuou na educação de jovens e adultos. "Há muita falta de interesse. A sala com capacidade para 40 alunos contava com cinco presentes e ainda assim, um ou dois interessados. Entendo as dificuldades de cada um, mas eu tinha uma aluna que morava no sítio, caminhava por rua de terra, deixava criança pequena em casa e queria aprender. Com exemplos em casa, Machado sabe o que a alfabetização ou a falta dela podem representar. "Meu pai tem 78 anos e acredito que o motivo de não saber ler nem escrever até hoje é o desinteresse. Minha mãe teve sete filhos, sou o caçula e quando já tinha cinco, foi atrás. "Eu me sentia frustrada de ver uma placa e não entender", recorda Luzia Pereira Machado, 73 anos. Depois de letrada, auxiliava até os filhos nas tarefas de casa. "Fiquei muito feliz". Com a alfabetização, dona Luzia alterou os documentos e trocou a digital pela assinatura. "Pode parecer pouco para uns, mas foi um momento muito importante. Dona Luzia mudou a sua realidade. "É preciso dar o primeiro passo, nunca é tarde para aprender", diz o professor Marcelo Machado. (W.V.)

Serviço
A EJA oferece alfabetização em todas as regiões de Londrina e também na área rural. São 32 escolas, em três períodos e todos os alunos recebem lanche e têm direito ao benefício do passe livre e material escolar, se necessitar. Mais informações: (43) 3375-0215.


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