O "Morro do Carrapato" foi desocupado e mais de 50 famílias acabaram desabrigadas em outubro de 2015. Mesmo vivendo em casas carentes, os moradores não queriam deixar o local. Sobre a reintegração de posse, a Companhia de Habitação de Londrina (Cohab) afirmou que o terreno, particular, daria lugar a um condomínio de apartamentos. Os ocupantes foram embora, porém o espaço de 92 mil m² nunca foi usado por um empreendimento imobiliário. Lembra uma comunidade fantasma, com moradias vazias e automóveis abandonados, tomado pelo lixo e objetos com água parada.
Moradora da zona leste, a doméstica Cristiane Maria Oliveira tinha alguns amigos vivendo no Morro do Carrapato. Ela se emociona ao falar deles e da situação de abandono no espaço. "Muitos moradores vivem hoje na rua. Conheço uma família, um casal e seus três filhos, que decidiu pagar aluguel e está passando necessidades. Às vezes não tem nem o que comer. Outros decidiram ir morar na rua", contou Cristiane, destacando que alguns enfrentam problemas de saúde. "Uma conhecida sofre de depressão desde que foi retirada daqui. Tinha gente que vivia aqui há 10 anos e, da noite para o dia, foi colocada na rua", disse ela, afirmando que nenhuma construtora apareceu por ali.
Enquanto a obra não sai do papel, vizinhos do antigo Morro do Carrapato tentam dar outra finalidade para o lugar. Segundo eles, a intenção é evitar que o mato alto e o lixo se espalhem ainda mais. "Para o mato não tomar conta de tudo, limpamos o terreno de vez em quando. Mas ele cresce muito rápido nesta época", ressalta Cristiane Oliveira. Já os amigos Zoalei Gonçalves e Gabriel Silva usam parte do terreno para criar cavalos. (Paulo Monteiro/NOSSODIA)
Diversidade de resíduos dificulta o recolhimento
A diversidade de objetos descartados no Morro do Carrapato impressiona. Há carros velhos, tambores vazios e cheios, uma montanha de gesso, alimentos, garrafas e embalagens plásticas, além de eletrônicos e móveis domésticos. Resíduos que cercam os barracos dos antigos moradores. O jovem Gabriel Silva revela que desde a retirada da comunidade os agentes municipais não são vistos. A assessoria de comunicação da CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) afirmou que já foi alertada sobre o problema, porém aguarda respostas de outros órgãos para realizar a destinação correta dos resíduos. A operação de recolhimento deve ser estudada, pois nem todos os materiais descartados podem ser reaproveitados. (P.M.)
Presidente da Cohab diz que não recebeu projeto
Mesmo o terreno não sendo de propriedade do município, na época o presidente da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab), José Roberto Hoffman, falou que acompanhava a situação desde 2013, quando 22 famílias viviam na área. Em 2014, o número passou para 44, e para 52 famílias em 2015, segundo o levantamento feito pelo Cras (Centros Regionais de Assistência Social). Hoffman disse que os proprietários do terreno possuíam uma decisão judicial para restituir a posse e construir um condomínio no local. O então presidente informou que, das 52 famílias, 27 possuíam cadastros na Cohab. Porém muitas não atendiam o critério do programa Minha Casa Minha Vida. Atual presidente da Cohab, Marcelo Cortez reforça que nem todos os que viviam no Morro do Carrapato seriam destinados aos novos empreendimentos populares de Londrina. Parte poderia ser encaminhada ao Flores do Campo, na zona norte, e ao Villagio Alegro, na sul. O Flores do Campo permanece ocupado irregularmente. O Villagio deve ser entregue aos contemplados no fim deste ano. "Muitas das famílias que viviam no Morro do Carrapato já tinham sido contempladas com moradias no Residencial Vista Bela", relembrou. Cortez também comentou que não conhece qualquer projeto para a construção de um condomínio no espaço que abrigou o Morro do Carrapato. "Havia a informação de que o proprietário teria a intenção de construir ali, mas, desde que assumimos a presidência da Cohab, não recebemos qualquer projeto." O município pretende construir outros condomínios na zona leste e atender famílias carentes da região. "Nas proximidades há uma outra área particular. O proprietário está em débito com o município e pode oferecer o espaço para quitar parte da dívida", adiantou. "A situação está sendo avaliada. A Prefeitura também possui um terreno na região. Juntos eles poderão receber residências populares e boa parte das famílias que não possuem moradias dignas. Tudo está em fase de viabilização", concluiu o presidente. (P.M.)