Uma espécie de usina cultural está em plena atividade no bairro das Mercês, em Curitiba. Batizado de Atelier de Criação Teatral, desde o começo do mês trabalha com 50 alunos divididos em duas turmas, além de uma oficina com seis integrantes, voltada exclusivamente à cenografia. Como esses cursos obedecem a módulos trimestrais, já estão abertas as inscrições para as oficinas que terão início em abril. A partir de fevereiro começa a fase de seleção dos candidatos.
"Não podemos trabalhar com todo mundo que chega", explica a atriz Nena Inoue, uma das sócias do novo espaço, juntamente com o cenografista Fernando Marés e o ator Luís Melo. A presença do ator é um chamariz para atrair muita gente ao ACT, mas ele não aceita essa condição, por mais óbvia que seja. Enfim, está em jogo uma proposta que tem muito de idealismo do trio: fazer desse lugar um núcleo de pesquisa teatral.
Há menos de um ano Melo revelou em entrevista exclusiva à Folha que estava se mudando para Curitiba motivado por esse projeto. A antiga estufa de bananas adaptada em teatro por Nena Inoue (Espaço Cênico), ganhou uma plástica radical. Transformou-se no estúdio de amplos espaços onde acontecem as aulas.
"A melhor forma de você receber as pessoas é tendo um local em que elas se sintam bem para trabalhar durante 24 horas", argumenta o ator. As reformas deram um ar tão acolhedor que "basicamente a gente ficou sem casa em Curitiba, porque permanece mais tempo aqui", afirma. É tão sério esse envolvimento que Nena Inoue, convidada a participar como personagem da página Gastronomia, deste caderno, preferiu montar seu prato predileto na cozinha do ACT.
O Atelier de Criação Teatral não é uma escola convencional que ensina a arte de representar. Aberto às mais variadas atividades artísticas, a palavra de ordem é a abertura do leque multidisciplinar:
- Hoje o teatro é uma das artes que engloba tudo. Na verdade você está pintando no palco, está fazendo uma escultura com o seu corpo e pode criar propostas a nível visual, a nível da musicalidade da palavra. Enfim está tudo entrelaçado e é esse o universo que a gente desenvolve aqui dentro.
Para ele, nem sempre as regras dão asas ao ator. Elas podem ter efeito contrário e engessar o artista. Outro ponto questionado por Melo é a passividade perante o diretor. Chegou a hora de resgatar o ator como criador, "ele poder assinar embaixo do seu trabalho". O ACT caminha neste sentido de investigação e curiosidade - e aí está sua diferença.
Depois de 11 anos no Grupo Macunaíma, de Antunes Filho, Luís Melo presenciou de perto a longa procissão de iludidos que imaginavam bastar estar ali para saírem artistas. "Em média passam 600 pessoas por ano. Se você for contar, verá que pouquíssimas vão para o teatro. Na realidade o Antunes tenta formar colaboradores, e não atores que executam. Da mesma maneira quando vão para a televisão, as pessoas pensam que já são atores. Entrar é fácil, o problema é permanecer".
Outra ilusão que move muita gente é achar que tendo aulas com um ator famoso, como Luís Melo, pode abrir portas no teatro, cinema ou televisão. Como equacionar o problema? O próprio Melo é quem aponta para a solução: "Com o tempo ou ela se retira do espaço ou muda esse pensamento". É essencial que isso aconteça porque no futuro o atelier irá manter um núcleo permanente de pesquisa, que será o resultado das oficinas levadas nestes primeiros tempos.
Aproveitando-se de seus contatos, o ator quer trazer para Curitiba desde dramaturgos a arquitetos, até teóricos da palavra. Todo conhecimento é benvindo. Aproveitando uns dias vagos na agenda, veio para cá a coreana Barcha, que deu aulas de movimento corporal. Babaia, conhecida pelos trabalhos já desenvolvidos na cidade, está voltando para ministrar aulas vocais.
Do mergulho investigativo dos artistas deverão surgir espetáculos que refletem esse conceito de pesquisa. Percebe-se o interesse de Luís Melo pelo escritor russo Tchecov, mas entre suas citações também estão Moliére, Shakespeare, Nelson Rodrigues, Dalton Trevisan. São exemplos aleatórios, depende dos caminhos que o grupo enveredar.
"Vamos respeitar o tempo de maturação dos grupos e das pessoas. Porque de repente elas podem não estar preparadas para montar Shakespeare, mas o exercício pode valer para Nelson Rodrigues. Estamos abertos a todas as possibilidades", explica o ator. Porém, há um detalhe revelador da importância da assinatura do ACT, quando o ator diz que "os espetáculos que forem levados aqui, deverão ter a identidade do espaço".
Essa identidade é a abertura para a vastidão artística. Sobre o projeto, o ator observa que "o grande sentido é não fechar o leque, nunca. Se você tem uma visão aberta das coisas, não se prende a nenhum sectarismo, nenhuma espécie de fascismo, de radicalismo, você consegue se expressar melhor, tem uma visão melhor das coisas", encerra.