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Um porto para Elizabeth Bishop

Elisa Marilia Carneiro - Folha do Paraná
21 mar 2001 às 09:58

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A poeta norte-americana Elizabeth Bishop viveu no Brasil de 1951 a 1967. Era homossexual, filha de mãe muito pobre e pai muito rico, viveu como um casal com a arquiteta e intelectual carioca Lota Macedo Soares, era depressiva e alcoolista. A peça "Um Porto para Elizabeth Bishop", com texto de Martha Góes, direção de José Possi Neto e encenada por Regina Braga, estréia dia 23, na Mostra de Teatro Contemporâneo do Festival de Teatro de Curitiba.

"Bishop, por tudo isso, foi uma poeta meio maldita já nos Estados Unidos, imagine no Brasil, daquela época. Mas sua poesia é considerada uma das melhores do mundo", exclama Possi Neto. Elizabeth era uma observadora astuta e o seu olhar sobre o Brasil, mais específicamente o Rio de Janeiro, da década de 50 e 60, do século 20, é o tema central explorado por Martha Góes.

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Testemunha de transformações políticas e sociais, Elizabeth viveu no Rio de Janeiro durante o período de Getúlio Vargas, da renúncia de Jânio Quadros, do início da ditatura militar, e da criação do Modernismo na Arquitetura e no Design. Essas mudanças, vistas pelos olhos de uma estrangeira, que admirava o povo brasileiro e observava-os nos mínimos detalhes, são contadas, em monólogo pela atriz Regina Braga.


Foi nesse período que Elizabeth Bishop escreveu os poemas que lhe renderam o prêmio Pulitzer, em 1956. Mas o Brasil, só redescobre Bishop no ano passado, quando seus livros foram reeditados. Para o diretor, só o fato de Bishop, ter percebido e dito, na década de 50, que o Rio de Janeiro "é o cenário de uma cidade maravilhosa e não uma cidade maravilhosa", justifica a montagem.

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Mesmo nesse cenário esdrúxulo a peça "Um Porto..." é divertida e muito engraçada, ao mesmo tempo que agressiva, segundo o diretor. "Lota e Elizabeth tinham uma linguagem muito moderna, eram extravagantes, amigas de intelectuais, políticos e artistas. A vida das duas foi vivida intensamente, até que Bishop morreu e Lota suicidou-se".


A peça inicia quando Elizabeth Bishop desembarca no Porto de Santos, em 1951, onde fazia escala de uma viagem pela América do Sul, fugindo de uma fase pessoal de grande depressão. A pedido da amiga Mary Morse, a poeta viaja a contragosto para o Rio de Janeiro, determinada a fazer uma breve visita e é durante esta visita que Elizabeth conhece e se apaixona por Lota, que então vivia com Mary. O monólogo retrata a vida da poeta, desde o momento em que chegou ao Brasil até o seu retorno a Nova York.

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"A peça procura detectar que ingredientes dessa temporada brasileira contribuíram para que Elizabeth tenha superado suas neuroses para chegar a uma velhice serena, como uma escritora consagrada", explica Marta Góes que, para escrever a peça, se inspirou nas lembranças de sua infância em Petrópolis, quando escutava histórias sobre as vizinhas homossexuais Lota e Elizabeth, chamadas por todos de "aquelas mulheres".


Ao convidar José Possi para dirigi-la nesse espetáculo, Regina Braga, que produziu anteriormente "Uma Relação tão Delicada", "Cenas de um Casamento" e "À Margem da Vida", levou em conta, entre outras razões, a sensibilidade do diretor para recriar a beleza visual e musical do Brasil daqueles anos.

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Serviço: Estréia nacional da Peça "Um Porto Para Elizabeth Bishop", dias 23, às 21h30 e 24 e 25, às 20 horas, no Guairinha.


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