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Um gângster sobre rodas

Francelino França
24 mar 2001 às 13:03

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O templo do teatro curitibano, o Teatro Guaíra, recebe hoje um gângster com nome de canalha, Olegário. Ele se locomove numa cadeira de rodas em direção ao destino trágico, arrastando inexoravelmente todos ao seu redor. Olegário (José de Abreu), personagem inesquecível da galeria de Nelson Rodrigues, protagoniza a primeira obsessão dramatúrgica do anjo pornográfico, "A Mulher Sem Pecado".

Olegário testa doentiamente a fidelidade da mulher Lídia (Luciana Braga). Trama insanamente uma farsa, se passando por inválido e assim, humilha, espezinha e exaspera todos. Olegário desmascarou a farsa da paralisia quando uma carta lhe informa que Lídia, já esgotada, foge com o motorista da casa. A metáfora da invalidez serve para camuflar a invalidez sentimental em que os personagens rodriguianos são destinados.

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O produtor e ator José de Abreu caiu de quatro pelo esquecido texto de Nelson. Desembolsou R$ 800 mil reais e montou um projeto gigantesco no Rio de Janeiro, que abraça toda a obra de Nelson Rodrigues.


O caleidoscópio rodriguiano abrange leituras dramáticas, exibição dos principais filmes inspirados na obra de NR e debates envolvendo os mais distintos aspectos que se desdobram num universo inesgotável. A montagem repercutiu favoravelmente nas páginas do jornal The New York Times e em críticas abonadoras dos mais importantes especialistas do País.

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Distante 60 anos da noite de estréia, o tempo impregnou outra conotação à peça. "As pessoas riem muito com esse texto. A montagem veio cumprir uma idéia inicial de Nelson em fazer uma comédia", diz Abreu à Folha2. Nelson concentra em Olegário todas as possibilidades de desenvolver o ciúme.


"A Mulher Sem Pecado" não se enquadrada nos textos mais badalados do reaça de suspensórios. Para José de Abreu, o destaque da peça reside no herói trágico que caminha para um destino funesto e sem volta. A trama se passa entre um final de tarde até a noite. A ligação com o folhetim pontua magistralmente o texto, além do final surpreendente.

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Existe uma dificuldade particular nessa montagem. O protagonista fica quase todo o tempo em uma cadeira de rodas. "Isso dificulta a interpretação, porque só posso movimentar a parte de cima do corpo. Eu não domino as rodas, quanto domino meus passos. Estou com a coluna arrebentada", afirma.


A direção de "A Mulher Sem Pecado" leva a assinatura de Luiz Arthur Nunes, que ostenta em seu currículo mais de 40 montagens. Nunes possui doutorado em teatro pela City University of New York tratando da obra de NR.

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Outro destaque é o elenco que traz nomes como Vanda Lacerda, Fernando Alves Pinto, Camilo Bevilacqua, Duze Naccarati, Isabel Themudo e Daniele Monte. A trilha sonora foi composta especialmente pelo tarimbado David Tygell. Eles pretendem viajar com a peça pelos festivais dos quatro cantos do mundo, se valendo do recurso de legendas projetadas no palco.


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