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Um dia de grandes atrações

Jackeline Seglin - Folha do Paraná
31 mar 2001 às 11:23

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Brasil, final dos anos 60. O dramaturgo Plínio Marcos expõe em sua obra as relações humanas em toda sua crueza, através de personagens que percorrem uma trajetória da mais abjeta degradação física e moral. O momento é de repressão. O País tem medo de encarar a realidade dos marginalizados e proíbe seus artistas de revelá-la ao mundo. Plínio Marcos é a liberdade de expressão - e que não quer calar, quer falar da opressão.

Ano 2001. Nada mudou. A dura situação dos desvalidos continua sendo desagradável aos olhos e, por isso, incomoda. E provoca a censura econômica, política, social... A situação não parou nos anos 70, nem as idéias de Plínio Marcos se foram com ele em 1999. Os retratos estampados pelo dramaturgo continuam atuais. Foi isso que motivou o diretor Sérgio Ferrara, de São Paulo, a resgatar a obra de Plínio Marcos e trazer ao palco do 10º Festival de Teatro de Curitiba o espetáculo "O Abajur Lilás", cuja estréia nacional acontece hoje, às 21h30, no Teatro da Reitoria.

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Escrito em 1969, o texto toca o que há de mais profundo no ser humano - a compaixão - através da desgraça de personagens que não estão ligados simplesmente àquele momento político do País. "O Abajur Lilás" fala de pessoas que vivem uma situação limite da sua resistência, entre a tortura e a morte, num mundo onde objetos valem mais que a vida. O texto retrata a história de Dilma, Célia e Leninha, que vivem em um mocó sob o domínio de Giro, um cafetão homossexual, e de Osvaldo, um homem que faz da violência o motivo maior de sua existência.


"Abajur Lilás é Plínio Marcos na veia", diz Sérgio Ferrara. "Ele é essencial, visionário do ponto de vista cultural, social e político e, por isso, tem que ser montado". Plínio Marcos (1935-1999) é um dos maiores nomes do teatro brasileiro, autor de mais de 20 peças. Teve várias delas censuradas, inclusive "O Abajur Lilás", com uma única montagem nos anos 70. A peça só foi liberada depois dos anos 80 e, mesmo assim, foi pouco montada.

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Sérgio Ferrara faz questão de frisar que o dramaturgo santista não tem nada de datado em sua obra. "Temos que parar de situar certas obras em momentos históricos. O País passou por transformações; nós temos uma outra visão do que foi a ditadura e, ainda assim, nos matamos constantemente da forma em que vivemos nesse País. A única coisa que a gente tem é esperança - e ela pode ser tirada", comenta. "Temos que resgatar isso para que as pessoas não se sintam mortas".


O elenco de "O Abajur Lilás" é encabeçado por dois experientes atores, Ester Góes e Francarlos Reis, que já trabalharam juntos nos anos 70 em "Hair". Trinta anos depois, estão no mesmo palco para um embate entre opressor e oprimido. Juntam-se a eles no palco, as atrizes Magali Biff (Célia), Lavínia Pannunzio (Leninha) e o jovem Elder Fraga, que está em sua segunda montagem com Sérgio Ferrara e interpreta o violento Osvaldo.

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Ester Góes é a prostituta Dilma, personagem que poder ser considerada um símbolo do povo sofrido e que, apesar de tudo, vislumbra possibilidades de mudanças. "O limite da Dilma é além da linha. Ela está quase do outro lado. O Brasil vive exatamente isso. Nós todos estamos compartilhando essa miséria, essa precariedade que cresce sem controle a cada dia. Ao mesmo tempo, estamos mais do que nunca mentindo para nós mesmos", alinhava. Ester Góes fala da decepção pela miséria, frustração e falta de dimensão humana. "É esse testemunho que quero dar em Abajur Lilás", antecipa.


A peça trata de pessoas no limite da morte, o que para Ester exige disponibilidade humana do ator a se transportar para esse universo. "É preciso disponibilidade do artista e do ser humano", diz. "Estou numa fase da minha carreira em que não tenho mais tempo de fazer coisas nas quais não posso estar inteira. E Plínio concede isso ao ator", afirma.

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A atriz Magali Biff, que considera a montagem um grande desafio, diz nunca ter feito nada tão realista no teatro. "É difícil falar de uma coisa que eu não vivo e que, ao mesmo tempo, está acontecendo na esquina", afirma. No entanto, uma leitura mais abrangente da situação do País leva a atriz a repensar: "Na verdade, o problema não está na esquina, está em cada um de nós", conclui.


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"O Abajur Lilás", espetáculo com Ester Góes, Francarlos Reis, Magali Biff, Lavínia Pannunzio e Elder Fraga (SP). Direção: Sérgio Ferrara. Assistência de direção: Maria Lúcia Pereira. Cenografia: J.C. Serroni e Laura Carone. Figurino: Elena Toscano. Iluminação: Vilela e Sueli Matsuzaki. Sonoplastia: Sérgio Ferrara.


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