Em atividade desde março deste ano, o Ateliê de Criação Teatral (também conhecido como ACT) cresceu. No último sábado, 24 de novembro, foi inaugurado um novo espaço dentro do ateliê, a sala multiuso. Em sua estréia, comportou uma exposição pouco convencional de fotos, vídeos e trilhas sonoras do trabalho realizado no núcleo.
Este ainda novo ateliê artístico de Curitiba tem em sua direção o conhecido ator Luis Melo, que atualmente participa da novela "A Padroeira", da Rede Globo, interpretando o personagem Molina. Melo é o coordenador artístico do ACT, que conta ainda com a direção de Fernando Marés (coordenador do Núcleo de Cenografia) e Nena Inoue (responsável pela produção geral).
O local, situado na Rua Paulo Graeser Sobrinho, número 305, no bairro São Francisco, antes era o Espaço Cênico, da Nena Inoue, que passava por dificuldades financeiras devido à falta de apoio. Luis Melo, velho conhecido de Inoue, surgiu com a proposta de entrar no projeto. Juntamente com Fernando Marés, o Espaço Cênico transformou-se então no ACT.
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A partir do ano que vem, ele vai servir de espaço para espetáculos, exposições, mostras, cursos, workshops, performances e outras manifestações adequadas a sua estrutura e que estejam em sintonia com a pesquisa de linguagem do Ateliê. O ator Luis Melo dá maiores explicações sobre a pesquisa em teatro, assim como o papel de Curitiba no cenário artístico nacional. Em entrevista para o Bonde, fala também de televisão e sobre a nova sala do ACT:
Bonde: Qual o perfil da Sala Multiuso, recém-inaugurada no ACT?
Luis Melo: O objetivo é abrir exposições para artistas plásticos. A vantagem que ela leva sobre os espaços oficiais é a liberdade. Às vezes um artista precisa fazer alguma alteração na infra-estrutura para expor um trabalho e não pode. Na sala multiuso não há esta limitação. Se o artista quiser, pode pintá-lo de outra cor, mudar o chão, entre outras mudanças. É adaptável ao perfil do trabalho.
Bonde: Mesmo com seu ateliê fixado em Curitiba, você continua realizando trabalho em novelas e miniséries da Rede Globo. Como você está dividindo seu tempo entre Curitiba e Rio de Janeiro?
Luis Melo: Minha base é Curitiba. Estou morando aqui há dois anos, fazendo ponte aérea com o Rio de Janeiro ou São Paulo, dependendo do trabalho. Estrategicamente, é uma maneira de desenvolver meu projeto de vida, o ACT, Ateliê de Criação Teatral. Nos últimos dois anos, estou dividindo meu tempo entre estas três cidades para poder estruturá-lo e colocá-lo em funcionamento. Em janeiro, vamos começar um espetáculo, que é o primeiro trabalho resultado destes dois anos de pesquisa feita aqui (em Curitiba).
Bonde: Seu trabalho na televisão tem possibilitado a manutenção do ACT, certo?
Luis Melo: Isso mesmo. Estrategicamente emendei duas novelas. Logo que finalizei o trabalho na novela "O Cravo e a Rosa", já iniciei "A Padroeira", que estou terminando de gravar. Assim pude manter financeiramente esta estrutura. O ACT é um investimento pessoal. Só depois que o ateliê ficou pronto, ele passou a receber apoios. Pra fazer televisão, não é necessário muito esforço. Há pessoas que me vestem, maquiam e me dão um texto para decorar e em seguida interpretar. Sou muito bem remunerado por isso. A TV não dá o mesmo prazer que o teatro , mas em compensação eu sou visto por um público que dificilmente me veria no teatro. A imagem do ator na novela chega até em cidades muito pequenas do interior que não têm cinema nem teatro. Esse lado da televisão me comove muito: a popularização do trabalho do ator.
Bonde: Desde quando você sentiu vontade de montar seu próprio espaço?
Luis Melo: Este era um desejo que eu tinha há muito tempo, desde que eu saí do centro de pesquisa teatral do SESC, em São Paulo. Isto foi em 1996. Quando tive a idéia do ateliê, não sabia ao certo em que cidade ele seria construído. Curitiba foi a cidade escolhida porque eu sempre tive um desejo de retornar. Eu morei em Curitiba até 1985. Saí daqui porque não encontrava espaço para desenvolver o trabalho que eu queria na época.
Bonde: Qual era este trabalho?
Luis Melo: Pesquisa em teatro. Passei 11 anos da minha vida me dedicando a isso, de 1985 a 1996, juntamente com meu colega Antunes Filho, que hoje coordena o Grupo Macunaíma, no SESC. Até essa época eu conseguia trabalhar sem a televisão. Mas com o tempo vi que ela tem um fundamento, pois permite viabilizar financeiramente projetos como o ACT.
Bonde: Como está o panorâma da pesquisa teatral no Brasil?
Luis Melo: Há grupos de pesquisas em várias cidades. O bom é que existe um intercâmbio entre estes pesquisadores. Todos se conhecem. Mas a pesquisa teatral no Brasil enfrenta um grande impasse que é a falta de apoio. As leis de incentivo dificilmente a favorecem. Muitas vezes elas auxiliam quem não precisa. Vemos muitos espetáculos comercialmente viáveis recebendo o apoio da lei. Mas com a união dos grupos de pesquisa, algumas empresas particulares passaram a nos apoiar, como a Brasil Telecom e a Petrobrás. É fundamental investir em pesquisa e não apenas no espetáculo pronto, porque é daí que vai sair o futuro da cena contemporânea brasileira.
Bonde: Pode-se dizer então que a pesquisa teatral seja o maior objetivo do ACT?
Luis Melo: Não só isso. O ACT é um espaço propício à pesquisa. Tem espaço físico e condições, tais como biblioteca e videoteca. Mas é também um espaço onde os artistas podem se reunir, discutir e possivelmente formar parcerias. Quando eu falo em artistas, não me refiro apenas ao teatro, mas em qualquer segmento artístico, pois o ACT é "multiárea". O teatro é resultado disso. Um exemplo: você não pode realizar um bom trabalho de corpo sem buscar referências na pintura ou na escultura. É saudável haver parcerias entre atores, músicos, bailarinos, fotógrafos, pintores, videomakers e cineastas. A tendência atual é fundir as diversas áreas.
Bonde: Pelos informativos do ateliê, já se nota esta diversidade artística. Vocês estão promovendo workshops com artistas das mais diversas áreas.
Luis Melo: Este é o Ciclo Multiárea. Ele tem atingindo temporariamente todos os segmentos da arte, pois é uma forma de se investir na comunidade artística. Dele já participaram artistas como Cildo Meireles, Masagão e Sérgio Ricardo. O formato fica a escolha do convidado, tais como workshops, debates ou experimentação prática. Há uma seleção para os alunos do workshop. As vagas são ocupadas com pessoas que já tenham um conhecimento sobre o tema, para que possam estabelecer um diálogo com o palestrante. Não interessa para o artista simplesmente expor seus conhecimentos para uma sala passiva. Deve haver uma troca. E para nós a quantidade não é importante, pois o ACT não é uma escola. O Arrigo Barnabé, por exemplo, em dezembro, vai dar seu workshop para 12 pessoas.
Bonde: É vantajoso para um ator exposto à mídia desenvolver um trabalho pessoal fora do eixo Rio-São Paulo?
Luis Melo: Quando você está muito exposto à mídia, você se torna uma pessoa muito requisitada e fica sem tempo para seus trabalhos pessoais. Optei por Curitiba para ter mais tranquilidade para trabalhar. A fuga do eixo Rio-São Paulo é uma maneira de romper. É um risco que eu corro. Às vezes eu deixo de participar de projetos lá fora por causa disso.
Bonde: Você chegou mesmo a recusar dois convites para filmes para se dedicar ao ACT?
Luis Melo: Sim. Eu precisava optar entre o cinema e o ateliê. Se você tem ansiedade para que um projeto seu aconteça, é preciso abrir mão de algumas coisas. Também recusei alguns convites para teatro. Mas eu não me arrependi do que deixei de fazer. Outra coisa que me conforta é que estes diretores sabem da existência do meu ateliê. Eles não só compreendem, mas também me incentivam. Afinal, é o sonho de todo ator e diretor ter um espaço como este.
Bonde: Além dos três diretores do ACT, que são você, Fernando Marés e Nena Inoue, outros artistas passaram a fazer parte do projeto. Comente um pouco sobre isso.
Luis Melo: É uma questão de cada um zelar por uma área artística. A Babaya veio de Belo Horizonte e é responsável pela pesquisa vocal. De Belo Horizonte veio também a Suely Machado, que é diretora do grupo Primeiro Ato, e está coordenando nossa pesquisa corporal. Dani Hu, de São Paulo, faz um trabalho com ópera chinesa. As demais contribuições são de Ana Gonzalez e Newton Gotto (artistas plásticos), Flávio Stein (música) e Alessandra Haro (fotografia).
Bonde: Muitos destes novos integrantes são de outros estados, assim como os artistas convidados para o ciclo multiárea. Está havendo integração com outras partes do Brasil. Mas esta integração é apenas passiva ou também é ativa? O ACT está levando seus trabalhos para fora?
Luis Melo: Ainda não. Quando se vai mostrar fora, é necessário um resultado de trabalho. Primeiro estamos formando um público aqui, abrindo o ateliê para que o público de Curitiba perceba o que está sendo desenvolvido. Isso forma uma base que possibilita que os espetáculos daqui tenham pontos de saída em espaços que conquistei com o tempo, como o SESC e o Centro Cultural São Paulo. Há pessoas com expectativa do primeiro produto prático do ACT para poder fazer este intercâmbio.
Bonde: O intercâmbio artístico de Curitiba com outros centros é freqüente?
Luis Melo: Ele não é freqüente porque a cidade recebe muita cultura de fora, mas não manda para outras praças sua própria produção. Às vezes nem se produz, pois o artista faz arte como meio de sobrevivência e também não existe apoio para o que sai daqui. Mas quando sai, é porque alguém de fora viu e levou. Um exemplo é o do diretor de teatro Felipe Hirsh. Ele está em São Paulo porque o SESC levou. Não foi o Governo do Estado do Paraná nem a Secretaria de Cultura.