Uma escolha primorosa marca o programa de abertura da Orquestra Sinfônica do Paraná para a temporada de 2001, hoje, às 10h30, no palco do Guairão: o "Concerto nº 1 para Piano e Orquestra", de Tchaikowsky, com solo de José Carlos Cocarelli, e a "Sinfonia nº 1", de Brahms. No pódio o maestro Jamil Maluf intimamente estará comemorando um feito que vai além da sessão inaugural - ele comemora na mais absoluta discrição o primeiro aniversário à frente da OSP. No final de março de 2000 recebeu o convite para vir a Curitiba cuidar da orquestra. Um desafio que aceitou prontamente. Pela resposta do público, sempre lotando a casa, Maluf concluiu que a cidade estava à espera de grandes espetáculos de sua sinfônica.
Outro aspecto interessante é o crescimento da sonoridade do conjunto, contabiliza o maestro. "Gosto de formar som de orquestra e isso demora. Você vai imprimindo sua característica, sua marca nessa sonoridade e é o mais fascinante no trabalho. Quem assistiu aos concertos pôde constatar isso, o som está mais encorpado", declara. Já neste 2001 Maluf promete ir fundo na proposta iniciada ano passado: abrir o leque musical e as possibilidades de trabalho com outras áreas artísticas.
Para possíveis contrariados, avisa: "Enquanto estiver trabalhando como maestro não adianta esperar de mim uma programação dogmática e excludente que não vai ter. Não faço programação cult, nem repetitiva. Acho isso terrível. Sempre acreditei e vou acreditar cada vez mais que a orquestra sinfônica hoje em dia é o instrumento mais moderno e mais versátil que tem na música hoje.
A OSP à medida que recebe elogios, ao mesmo tempo sente o peso da recessão: as verbas oficiais minguaram tanto que este ano ela vai depender até da bilheteria. Não dará muita coisa, porque os ingressos são oferecidos ao público a preços "popularíssimos", como diz o maestro Jamil Maluf: R$ 5,00 e R$ 2,50 para estudantes. Seja como for, ajuda. "Trabalho em cultura é muito difícil", comenta. O antídoto ao problema é "não perder a força e a vontade de trabalhar".
O público imagina que no mundo do espetáculo tudo é muito fácil, mas a realidade é outra. "É um sacrifício enorme da administração para arranjar dinheiro. Porisso que falo aos captadores de patrocínios, aos donos de empresas que procurem a orquestra e colaborem com ela para se fazer alguma coisa", diz Maluf. O maestro revela que muitos artistas têm vindo se apresentar em Curitiba com cachê inferior a menos da metade do que recebem normalmente.
Esta é a contribuição que eles dão ao "projeto de reestruturação e recuperação da orquestra do Paraná". O apoio neste caso é geral: solistas e regentes fazem isso atendendo a seu pedido pessoal. "Estou conseguindo fazer esta temporada porque todo mundo está colaborando. O trabalho cultural é uma batalha e quando é orquestra é uma batalhona", compara.
Assim como as dificuldades ganham proporções, o mesmo acontece pelo lado da contribuição dos que amam a música. Nessa trincheira estão desde os artistas convidados, aos administradores do teatro, músicos, arquivistas, montadores e outros tantos. "É muita gente batalhando para que o espetáculo saia da melhor maneira possível. Enquanto existir essa vontade, a arte continuará, porque ela depende muito disso".
A dura situação ostentada não diz respeito somente à OSP. Maluf conta que nos 20 anos de carreira no Teatro Municipal de São Paulo (completados ano passado) jamais viveu tempos tão bicudos. "A situação econômica da Prefeitura e do Teatro Municipal é a mais grave dos últimos tempos. Nestes 20 anos de casa nunca vi o teatro numa situação financeira tão complicada. É o reflexo da gestão Celso Pitta". Por essas e outras é que se conclui: o sonho acabou.
"Os órgãos públicos têm que acordar para essa história da iniciativa privada. Eles têm que criar mecanismos para captação de patrocínio. A saída é essa", insiste o maestro. Para um novo projeto que pretende lançar voltado a concertos ao meio-dia no auditório da Reitoria, ele pretende entrar na Lei Municipal de Incentivo à Cultura.