Shows & Eventos

Sérgio Ferro é homenageado em Curitiba

12 mar 2001 às 10:40

Momento de arte e sensibilidade no Palácio Iguaçu. Nesta segunda-feira, às 18h15, o governador Jaime Lerner estará prestando homenagem a um dos grandes artistas brasileiros - nascido em Curitiba -, que há 30 anos vive no exterior: Sérgio Ferro. Durante a cerimônia será apresentado um catálogo com texto de Margarita Sansone, ex-presidente da Fundação Cultural de Curitiba, onde se registra a passagem do artista por Curitiba. Ele criou um mural para o teto do Memorial da cidade.

Ferro, que deixou o País em 1972 perseguido pela ditadura militar, está discretamente voltando ao Brasil. Ele vai dividir seu tempo entre o calor da Bahia (mais precisamente Salvador) e o vilarejo francês que é seu xodó, Grignan, situado na região de Provença.


O artista aproveitará a homenagem para oficializar a doação de uma tela ao Museu de Arte do Paraná. Nas dimensões de 146 x 114 cm, a obra sintetiza não apenas as dores de Cristo, mas de todos aqueles que sentem na carne e na alma a opressão e a violência do poder. Por essa e outras razões é que Ferro está satisfeito em ter o quadro acessível à visitação pública.


Sobre sua volta ele explica que isso se deve a problemas de saúde. Foi obrigado a procurar um lugar quente para morar e como Salvador é a terra de sua mulher, Ediane, essa poderia ser uma boa escolha.


O casal passou os dois últimos meses na cidade e foi o bastante para Ferro se apaixonar pelo lugar. Mas não quer dizer que esqueceu o recanto medieval francês, onde ergueu sua casa e ateliê. A partir de agora manterá ponte aérea entre os dois pontos. Quando o inverno chegar na Europa, Sérgio fará seu vôo de arribação ao solo baiano. Depois retorna à aldeia, cantada por ele em muitas entrevistas.


Aos 62 anos de idade, o arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, está pleiteando a aposentadoria depois de ministrar aulas durante 38 anos. Ele acha que é chegada a hora, pois além dos problemas de saúde, há outro fator importante - a distância que o separa da juventude. Está cada vez mais difícil estabelecer o diálogo com os estudantes, explica com seu jeito manso.


"Estou muito velhinho", justifica em entrevista à Folha Dois. Quanto ao contato entre o mestre e os alunos não há qualquer problema. Estes são amáveis e atenciosos, mesmo assim as gerações são outras, acredita Ferro. Instado a concordar que 62 anos não é tanta idade como sugere, ele brinca: "Sou velho na alma". Outro exagero.


Ao mesmo tempo em que cria esses abismos imaginários, o artista aproxima-se das novas gerações por encontrar nelas a mesma energia que está em si e que o levou a se ausentar no exterior. Dias atrás participou de uma aula inaugural de Arquitetura em Piracicaba (SP) e teve a grata satisfação de ver que a garotada está preocupada com questões sociais.

O Brasil continua mergulhado nas diferenças sociais aviltantes, mas pelo menos agora dá para sentir que está vindo uma geração disposta a "reformar nossas mazelas". Sérgio Ferro mantém-se cauteloso, porém esperançoso: "Se mantiverem o norte, vem algo bonito. Há um vislumbre de luz".


Continue lendo