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Réquiem que vem da Polônia

24 mar 2001 às 12:53

Única atração internacional da Mostra Contemporânea do 10º Festival de Teatro de Curitiba, o espetáculo "Um Réquiem Para Tadeusz Kantor", da companhia Ariel Theatre, da Polônia, estréia hoje no Brasil com uma apresentação às 21h30, no Sesc da Esquina. Trata-se de uma homenagem ao dramaturgo, diretor, cenógrafo, artista plástico e autor de manifestos teatrais, Tadeusz Kantor, morto em 1990 e considerado um dos maiores nomes do teatro polonês ao lado de Jerzi Grotowski.

Em "Um Réquiem...", jovens músicos ensaiam em um depósito, que antigamente servia para guardar objetos do cenário da companhia Cricot 2, criada por Kantor em 1956. A diretora e atriz Zofia Kalinska e a atriz Mira Rychlicka fizeram parte da lendária companhia por 20 e 30 anos, respectivamente.


Kantor era defensor da idéia de que a arte não morre nunca - ela renasce sempre. Ele é autor do manifesto "O Teatro da Morte" (1975) e da peça "A Aula Morta" (ou A Classe Morta), em que apresenta idosos em uma antiga sala de aula procurando pateticamente retornar à infância. Em 1975, Zofia e Mira participaram dessa montagem, na qual Zofia interpretava uma prostituta lunática e Mira, o professor.


Partindo da idéia original de Kantor de recuperar as memórias da infância numa sala de aula, Zofia usou um ensaio de um réquiem para quarteto de cordas, onde estudantes de música vêem ressurgir personagens ligados à vida do polonês, como atrizes da companhia, a mãe do diretor e o próprio Kantor, ainda menino.


No espetáculo "Um Réquiem...", Zofia e Mira retornam à cena, resgatando pedaços da memória e criando uma atmosfera num segundo plano que transmite o que era o trabalho de Kantor. "Quis fazer uma homenagem a ele, mas não me interessa a comparação. Trata-se da continuação da idéia de Kantor, da exploração do quarto da memória. Ele construiu primeiro, num plano muito mais sólido. O que faço hoje não é o que ele fez antes", comenta Zofia.


Junto aos atores, um quarteto de músicos (violinos, cello e viola) perambula pelo cenário composto de carteiras, guardas-chuvas velhos, bandagens, que lembram o depósito antigo ou o túmulo de Kantor no cemitério em Cracóvia. As composições criadas pelo jovem Bartosz Chajdecki - valsas, tangos e cânticos - têm bastante peso neste espetáculo. Para Zofia, somente a música pode expressar essa homenagem a Kantor.


Zofia Kalinska atuou na companhia Cricot 2 até 1977, quando partiu para trabalhos mais tradicionais. "Queria atuar com outro diretor para aprender coisas diferentes", conta a atriz, que fez várias experiências. "Não encontrei e decidi ser diretora de mim mesma". Foi então que ela fundou a companhia Akne em 1984 (nome original da cia. Ariel). "Descobri que poderia ser criativa no palco como Kantor. Mas não o imito. Eu parto da exploração do psicologismo. Kantor nunca separou forma e mensagem. Como diretor, dava igual valor aos elementos".


A diretora faz questão de salientar que Kantor não era contra a tradição e que nunca negou suas influências. "Seria estúpido dizer que inventou algo. Mas ele é o criador do teatro total, que dá igual importância ao texto, à música, ao cenário, ao ator...".


"Um Réquiem..." estreou em 1998 e foi premiado no festival de Edimburgo (Escócia). A companhia polonesa está no Brasil, pela primeira vez, a convite do Sesc São Paulo. Depois de Curitiba, a cia. Ariel dá um workshop e faz curta temporada no Sesc Belenzinho, na capital paulista.



Serviço

"Um Réquiem Para Tadeusz Kantor", com a companhia Ariel Theatre, da Polônia. Texto e direção: Zofia Kalinska. Elenco: Zofia Kalinska, Mira Rychlicka, Rebecca Browm, Dera Cooper e Estréia hoje, às 21h30, no Sesc da Esquina (Rua Visconde do Rio Branco, 969). Reapresentação: amanhã, às 20 horas. Duração: 50 minutos.


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