Um retrato do dramaturgo Plínio Marcos se destaca na parede do teatro de arena Eugênio Kusnet, no Centro de São Paulo, onde o diretor Sérgio Ferrara ensaia o elenco de "Abajur Lilás". O espetáculo fará sua estréia nacional no 10º Festival de Teatro Curitiba. Mais do que uma relação profissional, Ferrara foi amigo íntimo de Plínio até o final de sua vida e garante que a sugestão de levar "Abajur Lilás" novamente aos palcos partiu do próprio dramaturgo. "Ele está ali para assistir aos nossos ensaios", justifica Ferrara, referindo-se à foto na parede.
O diretor comenta Plínio Marcos sempre dizia que "Navalha na Carne" e "Dois Perdidos Numa Noite Suja", eram suas peças mais montadas; enquanto que "Barrela" e "Abajur Lilás" estavam praticamente esquecidas. Ele lembra que, na primeira vez em que tentou ir aos palcos, com Lima Duarte num dos papéis principais, "Abajur Lilás" foi censurado pela ditadura militar.
Em novembro do ano passado, quando Ferrara dirigiu uma leitura do mesmo texto no aniversário de um ano de morte do dramaturgo, Lima Duarte veio especialmente do Rio de Janeiro para participar. "Ele deu este presente para o Plínio", comenta o diretor.
Bebendo na fonte do mais puro realismo, Plínio Marcos conta em "Abajur Lilás" a triste história de três prostitutas decadentes (a veterana é interpretada pela atriz Ester Góes), exploradas por um cafetão homossexual. Mais de 20 anos após ser escrito, o texto permanece atual por abordar com profundidade temas como os limites do ser humano.
Depois de Curitiba, a nova montagem do espetáculo seguirá para Santos, litoral paulista, terra natal de Plínio Marcos. "Será uma forma de homenageá-lo", afirma Ferrara. Acompanhe trechos da entrevista exclusiva que ele concedeu ao Folha 2 antes de um dos ensaios:
Folha - Depois da primeira montagem de "Abajur Lilás", censurada pela ditadura, o espetáculo voltou a subir aos palcos?
Ferrara - Sim, a segunda montagem de "Abajur Lilás" foi dirigida por Fauzi Arap e produzida por Antônio Fagundes na década de 70. Esta foi a primeira e única apresentação a que o público pôde assistir. Depois disto, nunca mais se retomou o espetáculo e, por isso mesmo, o Plínio queria que se revisitasse a obra. Seu objetivo era que as pessoas percebessem a profundidade e a dimensão humana daqueles personagens, que continuam atuais. É importante perceber que eles não estão ligados simplesmente àquele momento político do País, à ditadura...
Folha - De que forma o texto cabe no contexto atual?
Ferrara - É a história de três prostitutas de quinta categoria, cafetinadas por um homossexual velho e decadente. Então, o contexto social é muito precário e isso gera uma reflexão sobre "será que somos alguém neste mundo, será que temos que ser explorados até o bagaço para poder ser alguém?" O Plínio consegue tocar no que há de mais profundo no homem, que é a compaixão através da desgraça. Aí está a discussão da peça... É aí que o público irá avaliar que qualquer um pode se identificar com estes personagens...
Folha - Mas o País mudou. O texto mantém a mesma força no atual momento social e político?
Ferrara - Plínio Marcos sempre dizia que suas peças são atuais porque o País continua miserável.... Enquanto o País for assim, seu texto será sempre atual... Ele retrata o ser humano no limite da sua resistência, na mais profunda miséria, na mais profunda falta de condições de ser alguém... Como no Brasil as coisas só pioraram, a nossa condição social se torna cada vez pior, o País passa por um momento econômico, social, cultural muito perigoso, o texto de Plínio Marcos se mantém cada vez mais atual. E é isso que o Plínio expressa muito bem em seus textos: através desta marginalidade, deste submundo, aparecem pessoas herdeiras de um sistema falido que elas não escolheram para viver, então só lhes resta a esperança. E essa busca pela esperança num mundo tão decadente é muito bonito, esses personagens acabam tendo uma dimensão mitológica pelo fardo do destino que elas têm que carregar...
Folha - Existe alguma semelhança entre os textos de Plínio Marcos e Nelson Rodrigues?
Ferrara - Eu acho que eles têm estilos muito diferentes, embora Nelson tenha influenciado Plínio Marcos... O Nelson se volta mais para a família, subvertendo valores éticos e morais que a própria família tenta trazer. Já no Plínio Marcos, encontramos um homem que se coloca na sociedade como um ser social, como aquele cara que busca sobrevivência numa realidade sufocante. Então, aí você vai encontrar o ser humano no limite de sua precariedade, mas profundamente embutido no contexto social. Isso é fantástico...
Folha - E agora os dois estão juntos num projeto do Teatro de Arena?
Ferrara - Exatamente, inclusive "Abajur Lilás" faz parte deste grande projeto chamado "Quem tem Medo de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos?". É uma pesquisa profunda sobre a obra de ambos, coordenada por mim e por Marco Antonio Brás. A primeira peça montada neste projeto, há dois anos, foi "Barrela", texto que Plínio Marcos escreveu com 22 anos de idade. Antes de adoecer, Plínio Marcos chegou a acompanhou os ensaios e a temporada de "Barrela" dirigida por mim. Juntos decidimos que "Abajur Lilás" seria o próximo...
Folha - É por isso que você afirma que "Abajur Lilás" é a estréia mais esperada do festival?
Ferrara - E também porque o Plínio acabou de nos deixar e isso nos entristesse muito porque ele era um homem muito ativo... Ele não era um dramaturgo que ficava em casa esperando que se montassem suas peças, muito pelo contrário, ia para as ruas vender seus próprio livros. Acho que "Abajur Lilás" é o espetáculo mais esperado do festival por esse sentimento de homenagem, pela oportunidade de trazer tão grandiosa obra para o festival. Ela é também uma peça tão esperada por estar trazendo a Esther Góes, que é uma atriz admirável... Eu cresci vendo-a interpretar... Agora, colocá-la em cena fazendo uma personagem de Plínio Marcos, uma destas decadentes e maravilhosas prostitutas que o Plínio soube construir tão bem, é maravilhoso...
Folha - Plínio Marcos era um especialista em criar mulheres?
Ferrara - Ele traçou perfis femininos fabulosos... As mulheres do Plínio são de uma beleza, de uma grandiosidade, de uma resistência humana... Elas têm um poder absoluto de romper o mundo...
Folha - A Ester Góes já havia participado da leitura de "Abajur Lilás" no aniversário de morte de Plínio Marcos...
Ferrara - Sim, ela vem participando do projeto desde o ano passado. Eu a considero uma parceira guerreira, porque até hoje encontramos um grande preconceito para montar Plínio Marcos... Querendo ou não, o título de maldito o perseguiu para sempre e ele é um desafio muito grande para qualquer ator e para qualquer diretor. Se você não está despojado em cena, não há como realizá-lo, porque ele é objetivo, direto e cru. Não tem um rococó que faça com que suas intenções sejam superficiais ou sutis, muito pelo contrário... Se o ator não é inteiro, verdadeiro e se não está desnudo para fazer isto, acaba fazendo um Plínio Marcos de butique. Tem que ter muita maturidade... É por isso que todos os atores do elenco tem grande maturidade na carreira e na vida pessoal. E a Ester foi alguém que trouxe uma verdade muito grande para esse projeto...
Folha - Como era a sua relação com Plínio Marcos?
Ferrara - Nós ficamos muito amigos na fase final da vida dele, quando eu estava montando "Barrela". Ele vinha aos ensaios e chegou a estar presente na estréia, mas foi proibido pelo médico de assistí-la, para evitar fortes emoções. Então, ele ficou deitado num divã, apenas ouvindo o espetáculo. Quando acabou, ele disse que apesar de não ter visto sabia que estava ótimo... Ele nunca perdeu seu forte senso de humor...