Uma Organização Não-Governamental (ONG) que hoje conta com apenas um membro é a responsável pelos R$ 1,5 milhão do 10º Festival de Teatro de Curitiba (FTC), que se realiza até 1º de abril. Todo esse dinheiro vem, em última análise, dos cofres públicos, já que o patrocínio de empresas privadas ou estatais - como a Petrobras - é feito por meio da Lei Rouanet, lei federal de incentivo à cultura. As empresas destinam a eventos culturais parte dos impostos que deveriam pagar ao governo.
Neste ano, além do patrocínio por esse sistema, o festival está recebendo R$ 300 mil da Prefeitura de Curitiba, dinheiro saído diretamente do cofre municipal. O evento perdeu, nesta edição, o patrocínio do governo paranaense que, nos últimos quatro anos, injetou R$ 900 mil no festival.
O FTC é promovido pela ONG Associação para o Incentivo à Cultura e ao Entretenimento (Apice) e a Calvin Entretenimento, nome fantasia da Esquina do Ingresso Agência de Promoção de Eventos LTDA. Essa última é uma empresa privada, cujos sócios são Cassio Chamecki, Leandro Knopfholz e Victor Aronis.
Fundadores do festival, em 1992, foram eles os criadores da Apice, em agosto de 1996. Knopfholz deixou a entidade em maio de 98 e Chamecki, em fevereiro deste ano. Chamecki atualmente é presidente e Knopfholz, diretor artístico da Fundação Cultural de Curitiba. É exatamente a Fundação Cultural o órgão da prefeitura responsável pelo repasse dos recursos de patrocínio a eventos, entre eles o FTC. Mesmo assim, Chamecki e Knopfholz não se afastaram da sociedade na empresa promotora do festival.
Na Apice, apenas Aronis permanece, na função de presidente, cargo que era ocupado por Chamecki. "Vamos realizar, após o festival, uma campanha para aumentar o número de associados", afirmou Aronis, diretor geral do festival.
Na divisão de tarefas entre as duas instituições, a Apice é responsável pela apresentação do projeto ao Ministério da Cultura e outras instituições para a captação dos recursos. Também faz a contratação e pagamento das companhias teatrais e a prestação de contas, junto ao ministério, da aplicação do dinheiro obtido pela Lei Rouanet. A Calvin é a produtora do evento -executa as atividades práticas, com o dinheiro obtido pela Apice. O endereço de ambas é o mesmo: uma casa no bairro Mercês.
Toda ONG é uma entidade sem fins lucrativos. Já a empresa privada, por natureza, precisa do lucro para se manter e se expandir. Segundo Aronis, o FTC, apesar da movimentação de altas cifras, não dá lucro. "Não ganhamos dinheiro com ele. Gastamos tudo o que ganhamos no festival. Mas o festival virou o forte da divulgação da Calvin. Todo o dinheiro que a Calvin ganha é com outros eventos." A empresa promove eventos como o Festival de Dança de Joinville (SC). Mas o próprio Aronis concorda que o FTC virou a principal vitrine da empresa.
A lei federal 9.790/2000, conhecida como Lei do Terceiro Setor, estabelece que, para obter a qualificação de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), o estatuto de uma ONG proíba seus integrantes de obter vantagem pessoal dos trabalhos realizados pela instituição. O enquadramento das ONGs como Oscips é facultativo. A Lei de Improbidade Administrativa (8.429/92) e o Estatuto do Servidor Público também proíbem servidores de obter vantagens pessoais em decorrência do exercício de seus cargos.
Além do financiamento com dinheiro público ou oriundo de renúncia fiscal, a Calvin ainda obtém recursos com a bilheteria das peças. Como regra, a empresa fica com a bilheteria total dos espetáculos da mostra oficial (16 neste ano) e pelo menos 20% da bilheteria das participantes do Fringe (mostra paralela, com cerca de 110 peças). Neste ano, o preço dos ingressos varia de R$ 1,00 (algumas peças do Fringe) a R$ 20,00. Segundo a própria divulgação do evento, o público esperado é de 100 mil pessoas.