Foi uma safra de filmes perturbadores. Se comparado ao atual ciclo da ''retomada'', avesso a transgressões estéticas, o cinema marginal desponta quase como um laboratório de invenções formais. Três décadas após sua dispersão, o movimento voltou a despertar interesse recentemente com a realização de mais uma retrospectiva, desta vez promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo.
A programação incluiu a exibição de 40 filmes (33 longas e sete curtas), debates com figuras representativas do período e um workshop com o mestre do horror José Mojica Marins. Da mostra resultou também a publicação do livro-catálogo ''Cinema Marginal do Brasil e Suas Fronteiras'', que acaba de sair da gráfica para ser distribuído a universidades, bibliotecas e instituições culturais.
Receba nossas notícias NO CELULAR
WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp.Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.
O livro é abrangente trazendo não só informações detalhadas sobre filmes e diretores, como também fotos, depoimentos (Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, Helena Ignez, etc), entrevistas (José Mojica Marins, Andrea Tonacci, Ozualdo Candeias, etc), textos críticos (Jean-Claude Bernadet, Ismail Xavier, Rubens Machado Jr, etc) e bibliografia comentada sobre o movimento.
Ao longo das páginas, vai se montando um panorama inquietante de época com menções a filmes cada vez mais revalorizados como ''O Bandido da Luz Vermelha'' (Rogério Sganzerla), ''A Mulher de Todos'' (Rogério Sganzerla), ''Matou a Família e foi ao Cinema'' (Júlio Bressane), ''Um Anjo Nasceu'' (Júlio Bressane), ''A Margem'' (Ozualdo Candeias), ''Hitler 3º Mundo'' (José Agrippino de Paula), ''Crônica de um Industrial'' (Luiz Rosemberg Filho) e tantos outros.
Da leitura, sobressai a idéia de que não havia uma unidade estilística pulsando nos filmes, tampouco a pretensão de constituir um grupo fechado em torno de manifestos ou declaração de princípios. ''O único compromisso era com a liberdade de pensar, de questionar'' - diz Andrea Tonacci, diretor do emblemático ''Bang Bang''.
Sublinham-se, contudo, alguns traços definidores presentes no conjunto desse legado tais como a radicalidade autoral, a produção de películas de baixo orçamento e o descompromisso com canônes cinematográficos embutindo no universo ficcional a desesperança, a atitude anárquica, o erotismo e a atração pelo grotesco e o abjeto.
Em alguns filmes, a atração pelo mostrar e a aversão pelo contar é tão grande que até mesmo a fala acaba por ser abolida. Há uma predileção pela exploração plástica da imagem em termos fotográficos e cenográficos na qual sacrifica-se o desenvolvimento linear da ação para se fixar demoradamente num rosto, numa paisagem, num berro ou até mesmo num vômito.
Mas a própria etiqueta ''marginal'', colada à experiência, nunca deixou de ser problemática. O cineasta Jairo Ferreira costuma usar o termo ''cinema de invenção'', título aliás de um livro de sua autoria publicado em 1986 e reeditado há poucos meses. Há quem prefira a expressão ''cinema experimental''.
Outros adotam o rótulo ''cinema underground'', designação que virou troça na língua ferina de Glauber Rocha, que a substituiu por ''cinema udigrudi'' com intenções depreciativas. Glauber se tornaria um desafeto do grupo. Muito já se escreveu sobre as convergências e divergências entre o Cinema Novo, que tinha Glauber como líder, e o Cinema Marginal.
Sabe-se que o avanço dos ''marginais'' foi impulsionado pelo recuo estético dos ''cinemanovistas'', que teriam abandonado as propostas mais radicais de narrativa experimental para se inserir no mercado através do cinema de espetáculo. O surto inovador atacava em duas frentes: em São Paulo, no núcleo da Boca do Lixo, e no Rio de Janeiro, capitaneado por Júlio Bressane.
Na capital paulista, a efervescência girava em torno de jovens diretores como Ozualdo Candeias, Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach e João Silvério Trevisan. As produções eram baratas, semi-amadorísticas. As películas deveriam ser rodadas em dez ou quinze dias no máximo. Muitas vezes, os diálogos e a própria trama eram decididos no próprio set.
Leia mais na reportagem de Nelson Sato na Folha de Londrina/Folha do Paraná deste domingo