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Nobel da literatura narra a história dos perdedores

11 out 2001 às 20:04

V.S. Naipaul, britânico de origem indiana nascido em Trinidad e Tobago e ''escritor cosmopolita'', como o definiu a Academia Sueca, foi premiado hoje (11/10) com o Nobel de Literatura 2001.

Naipaul foi homenageado por ''ter mesclado narração perspectiva e observação incorruptível em suas obras, que nos compelem a ver a presença da história suprimida'', indicou a Academia.


Descendente de índios nascido no Caribe, ele é considerado escritor do desenraízamento, autor de uma obra dividida entre a Índia, Trinidad e Inglaterra, que reflete sua própria dificuldade de ser.


Autor de mais de 25 livros, Vidiadhar Surajprasad Naipaul é considerado um dos maiores escritores vivos do século XX. Seu nome era evocado há muitos anos para o Nobel.


''A maioria de nós conhece nossos pais e avôs, mas nossas origens são mais distantes, remontamos ao infinito: todos, remontamos até a origem da raça em nosso sangue, nossos ossos, nosso cérebro. Arrastamos a memória de milhões de seres'', escreve Naipaul no livro ''A Way in the World'' (1994).


''Às vezes, podemos ser estrangeiros a nós mesmos'', diz. Esta frase o revela e descobre sua obra, em que alienação, desenraízamento, solidão e desesperança voltam como leitmotiv.


Nascido na ilha de Trinidad em 1932, V.S.Naipaul descende de uma família de brâmanes pobres da Índia transplantada para as Antilhas a fim de trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar. Com uma bolsa, parte para a Inglaterra a fim de estudar.


A Grã-Bretanha se converte em sua terra de exílio voluntário. Autor respeitado, Booker Prize em 1971, o emigrante caribenho de origem indiana recebe um título nobre da rainha da Inglaterra em 1990.


Para ele, escrever é ''aportar uma luz nova ao mundo''. Seus primeiros livros têm por contexto Trinidad. ''Uma casa para o senhor Biswas'' (1961), seu primeiro grande romance, conta sua experiência indiana e sua própria juventude.


Dedicado totalmente a escrever desde 1954, percorre o mundo a partir de 1960, mas, recusando o rótulo de escritor-viajante, Naipaul afirma: ''Viajo sobre um tema. Trabalho não para escrever sobre si mesmo, mas para contemplar o mundo. Viajo para fazer uma pesquisa''.


Sátira e humor acompanham uma obra a meio caminho entre o relato e a reportagem, baseada no conflito permanente entre culturas tradicionais e valores contemporâneos, com um texto belo e depurado.


O escritor descreve Paquistão e Irã em ''Entre os Fiéis'' (Among the Believers)'', o sul dos Estados Unidos em ''A Turn in the South'', a Argentina en ''The Return of Eva Peron'' (1980), mas também a Índia, Malásia e Inglaterra.


Naipaul não escreve romances há algum tempo. ''Devo admitir que detesto a palavra romance. Não consigo compreender por que é tão importante escrever ou ler histórias inventadas'', afirma.


De olhar agudo, Sir Vidia - amante do tênis e dos bons vinhos - pode parecer arrogante. Alguns jornalistas que o entrevistaram tiveram a amarga experiência.


Com frequência irritante e criticado, Naipaul utiliza sua pena como uma arma. O marxismo é ''um clichê tranquilizador para intelectuais deficientes''. As Antilhas, ''uma sociedade de escravos, incapaz de criatividade''. A indiana, ''uma civilização moribunda''.


Em 1998, em seu livro ''Beyond relief'' (Além da Fé), dizia que a religião muçulmana ''obriga as pessoas a rechaçarem seu passado, e assim a si mesmas''.

O etnólogo Georges Balandier sintetiza V.S. Naipaul: ''É o anti-Fanon, não evangeliza em nome das libertações, não é portador de messianismos salvadores. Não anuncia nada. Situa-se no pólo oposto de Senghor: as virtudes mestiças não são exaltadas''.


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