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Nasser, o herói da farsa

10 nov 2001 às 13:12

Poucos profissionais conseguiram tanto poder na história da imprensa brasileira como David Nasser (1917-1980), estrela maior da revista O Cruzeiro, uma espécie de TV Globo da década de 50. Ele desfrutava - no mais amplo sentido - de um prestígio que nenhum outro jornalista ostentou, no período de 1943 a 1974. Apesar do reconhecimento profissional, fatos relevantes e obscuros de sua vida permaneciam desconhecidos.

O livro recém-lançado ''Cobras Criadas - David Nasser e O Cruzeiro'', biografia escrita pelo jornalista Luis Maklouf Carvalho, editado pela Senac, joga luz nos bastidores escusos da revista e nos métodos profissionais nada ortodoxos de Nasser. Depois de escrever ''Mulheres que Foram à Luta'', detentor do Prêmio Jabuti em 1999, em que conta a luta armada do ponto de vista das mulheres, Maklouf farejava um assunto mal explicado, protagonizado por alguém com a vida pouco conhecida. Ele encontrou em Nasser o personagem fascinante e, de quebra, traçou um panorama da revista semanal O Cruzeiro, lançada em 1928 que levou seu último exemplar às bancas em 1975. Com a cobertura da morte de Getúlio Vargas, em outubro de 1954, a revista chegou aos patamares de 720 mil exemplares, o maior de sua história, num período em que o Brasil possuía 54 milhões de habitantes.


''Cobras Criadas'', um cartapácio de 600 páginas e 1,3 kg, traz mais de 200 imagens, apoiado em 103 entrevistas com familiares e ex-amigos. O livro revela que David Nasser manteve relações de profundidade com militares, fazendeiros e empreiteiros influentes. Todo o crescimento financeiro do jornalista tem intrínseca relação com essas facções.


Filho de libaneses, o ''turco'' nasceu em 1917, em Jaú, interior paulista e passou a infância em Caxambu (MG). Luiz Maklouf entalha com minúcia a figura lendária de Nasser, o menino franzino que nascera com problemas de visão e paralisia parcial nas pernas. Chegou a guiar charrete, puxada por um bode, quando criança. Na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, de posse de um tabuleiro, vendia lápis, pentes, giletes e outras quinquilharias.


É essa trajetória do sujeito de origem humilde que se tornou amigo influente de presidentes, ministros e empresários que Maklouf apresenta. Contrapondo ao poder que desfrutava, era uma figura de extrema fragilidade física. Caminhava como se estivesse bêbado. Era fanhoso, além de ter a dicção atrapalhada. Vaidoso ao extremo, costumava ler em voz alta as partes do texto que julgava esbarrar na genialidade. Nasser trabalhava com o fotógrafo francês Jean Manzon. A dupla peçonhenta foi responsável por grandes controvérsias e intrigas nos anos 50. Apesar de não ostentar técnica moderna de texto, não era antiquado. Mas foi no terreno imaginoso que Nasser fez nome. Ele oferecia-se como notícia principal, mesmo quando cobria grandes histórias. O protagonista do livro se passava por vítima ao inventar prisões que nunca sofrera.


Outra faceta do jornalista é a de letrista de quase três centenas de músicas, entre elas ''Nega do Cabelo Duro'', ''Canta Brasil'', ''Atiraste uma Pedra'' e ''Pensando em Ti'', compondo com Ataulfo Alves, Luiz Gonzaga, Garoto, João Roberto Kelly, Lupicínio Rodrigues, entre outros. Foi autor de 17 livros.

Leia mais na reportagem de Francelino França na Folha de Londrina/Folha do Paraná deste domingo


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