A arte é uma constante corda bamba. Só mesmo os imbuídos de paixão se jogam a ela como se fosse um porto seguro, correndo todos os riscos. Transferindo esse amor sem reservas para o palco, tem-se o mote do mais novo espetáculo do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, "Um Trem Chamado Desejo" que faz hoje sua estréia no 10º Festival de Teatro de Curitiba.
O título é uma brincadeira à obra colossal de Tennessee Williams, "Um Bonde Chamado Desejo", mas os trilhos são completamente opostos. Os mineiros trazem para a cidade uma comédia musical que é ao mesmo tempo um olhar carinhoso ao fazer teatral. O diretor Chico Pelúcio concorda: "É uma homenagem ao ator, sem que quiséssemos nos auto-homenagear".
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O enredo se passa numa faixa de tempo entre o final dos anos 20 e o começo dos anos 30, na pacata e conservadora Belo Horizonte. A capital rendeu-se ao fascínio do cinema, que é a grande sensação em todo o mundo. Multidões de extasiados formam filas quilométricas para assistir às imagens em preto e branco. Enquanto isso, o eixo Rio/São Paulo ditava a moda das temporadas teatrais. Especialmente o Rio, com suas revistas maliciosas no Teatro Tiradentes.
Pois bem, nesse contexto histórico-cultural a Companhia Alcantil das Alterosas vive momentos de sufoco e de impasse no repertório oferecido ao público, a cada dia mais minguado. De um lado está o cinema, com o poder dos astros de Hollywood chamando a população para o sonho. Do lado contrário os atores mineiros tentando copiar a graça e a malandragem carioca, numa luta insana para fazer vingar as revistas teatrais.
É um embate injusto - a companhia, apesar de seu nome pomposo sugerindo píncaros e rochas, exige de seus artistas uma dedicação que aos olhos dos incrédulos soa de forma suicida. Ora, a cidade não entende que aqueles artistas tomaram como referência os musicais cariocas.
A história dessa gente tem raízes nos picadeiros dos circos e nos grupos mambembes que percorriam o interior levando suas comédias e dramalhões. Famílias artísticas muito próximas, percebe-se. Então, na capital, os atores sonham com a fama, o brilho, a lantejoula. Eles buscam o estrelato, mas a situação é perversa: jovens de classe média e palhaços em fim de carreira estão no mesmo barco.
A discussão da sobrevivência, a iminência do teatro perder seu público às modernidades da diversão, o sonho do sucesso permeiam a montagem que usa do bom humor para seu relato. "Não é um trabalho autobiográfico; é uma vontade da gente falar da nossa profissão", comenta Pelúcio.