O primeiro Festival de Teatro nasceu num cenário cultural bastante tímido em Curitiba. Talvez por isso, as primeiras edições tenham causado impacto maior na cidade. Hoje, dez anos depois, o festival já se incorporou na programação curitibana e oferece bem mais atrações do que há uma década. Se o público está mais exigente, há que se avaliar, mas o fato que houve uma mudança no cenário cultural da cidade. Essa transformação, na opinião do agora único sócio da Calvin que está à frente da organização do evento, Victor Aronis, contribui para que o festival não cause tanta polêmica e expectativa como antes.
Os espetáculos já não surpreendem tanto como "Sonho de uma Noite de Verão", dirigido por Cacá Rosset, que além de inaugurar a Ópera de Arame na primeira edição do festival, em 1992, trazendo um nova alternativa de espaço, trouxe também novas perspectivas de montagem cênica. "É natural que, com o passar do tempo, essas novidades se esgotem", justifica Aronis sem explicar, no entanto, porque houve uma queda gradativa na qualidade dos espetáculos trazidos.
No primeiro festival, apenas 11 peças figuravam no evento. Hoje são mais de cem, entre Mostra Oficial e o Fringe, Mostra Paralela. Mas é preciso garimpar a programação, pois esse gigantismo nem sempre é sinal de qualidade. É o que opina o diretor de teatro Fernando Kinas. Para ele, falta definição na organização do FTC. "Os organizadores promovem o evento para estar na mídia nacional ou para discutir as questões contemporâneas do teatro?", questiona.
A falta de compromisso artístico e ético na organização, segundo o diretor, figura como um dos principais problemas atualmente enfrentados pelo festival. Kinas compara o evento com o Festival Internacional de Londrina (Filo), que diferente de Curitiba, na sua opinião, encontrou o caminho das pedras da produção ao longo de sua existência. "No FTC é como se fosse uma competição, cada ano existe uma urgência maior em colocar mais espetáculo. No Filo, as atividades paralelas são tão importantes quanto as peças, e o que conta é a qualidade", confronta.
O histórico do número de peças no festival tem aumento gradativo. A maior parte dos espetáculos hoje acontecem no Fringe, mostra copiada do Festival de Edimburgo (Escócia). O Fringe surgiu em 1997, com sete peças. Este ano apresenta pouco mais de cem, mas os grupos ainda se valem da mesma (precária) estrutura. A mostra oficial, que começou com 11 peças, atualmente apresenta 23.
Para o crítico de teatro e curador do festival desde o processo embrionário do evento, Alberto Guzik, apesar do inchaço de espetáculos que o FTC se submeteu nos últimos anos, nada mudou. "O festival não está melhor nem pior", enfatiza. O curador do evento afirma que, dentro das circunstâncias criativas do teatro em cada época, o festival continua "estimulante".
Guzik, que em 1997 estreou como dramaturgo no próprio festival (com a pouco incitante "Um Deus Cruel: O teatro dentro do teatro", dirigida por Alexandre Stockler) comenta ainda que, se o festival não tem mais o mesmo impacto que em anos anteriores, cabe à cidade avaliar. "O FTC continua fazendo um levantamento da produção teatral do Brasil no momento", garante. O público poderá conferir (e avaliar) na próxima quinta-feira, quando as cortinas do 10º Festival de Teatro de Curitiba finalmente irão se abrir.